Tags

livros

entrevista, história, livro

urbanas

“As roupas são capazes de anunciar revoluções, como afirmou a lendária editora de moda Diana Vreeland, em cada esquina de São Paulo há cenas dos próximos capítulo”.

urbanas1

Esta frase conclui o texto de apresentação do livro “Urbanas”, lançado em maio pela editora Livre Conteúdo.

O impresso derivou um documentário, no qual algumas fotografadas refletem sobre si mesmas, e sobre a condição feminina na cidade. Aqui:

Ambos foram capitaneados pelo editor Ricardo Feldman. Esta que vos escreve (#autopromoção) fez a pesquisa, a entrevista, é co-autora do roteiro do documentário e dos textos de apresentação do livro – uma retrospectiva da moda do século XX, com um capítulo especial para as duas décadas do novo milênio. Registro bem importante do streetstyle nacional feito por uma equipe de jovens fotógrafos desbravadores dos quatro cantos paulistanos. O conteúdo do projeto é um retrato do zeitgest atual. #ficadica

crônica, fotografia, história, livro

natureza

O blog completa 11 anos neste mês (dia 17 de janeiro). Ele é capricorniano, mas como o ascendente é o Sagitário da autora, ele sempre foi inquieto, avesso a rótulos e a regras. Para comemorar o aniversário fiz este texto fragmentando.

***

prólogo
O encontro com uma árvore chamada Samaúma aconteceu no final de 2014 quando conheci Alter do Chão (PA). Me impactou muito. Foi a minha primeira (e ainda única) vez na Amazônia. A exuberância do verde e dos rios, pelo conjunto da obra, tomou de assalto o topo da lista de lugares mais lindos que visitei. O contato com o floresta teve digestão prolongada e me contaminou com a bactéria da curiosidade em entender o papel de um mero ser humano urbanóide e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade em meio a exuberância da natureza.  Liguei a antena para os temas relatados a seguir.

Raízes da Samaúma/ Araquém Alcântara©

árvore
Para abraçar o tronco de uma Samaúma é preciso fazer uma ciranda com umas 30 pessoas. A espécie ocorre nas florestas tropicais e é considerada sagrada pelos povos nativos. Os Maias foram um deles. Eles acreditavam que suas longas (chegam a ter 300 m de extensão) e profundas raízes permitiam a comunicação com o mundo dos mortos. Já sua copa imponente (de altura equivalente a um prédio de 20 andares) era a “escada para o céu”. Nos dias de hoje ela é apelidada de “telefone de índio” – o eco produzido por golpes de madeira em suas raízes ecoam num raio de 1 km e facilitam a localização. Também funciona como um GPS da mata- servindo de ponto de referência para os barqueiros nos rios amazônicos – as estradas da região.

O título de “Rainha da Floresta” não é por acaso. Caprichosa, até atingir sua plenitude ela enfrenta muitos desafios. Seu florescimento é irregular. Pode demorar até sete anos* e ela depende da colaboração de outras espécies para se reproduzir. Floresce somente durante a noite e sua flor tem a cor branca para atrair os morcegos. Enquanto eles se lambuzam com o néctar da flor, vão sujando as asas com o pólen e o transportam até uma outra Samaúma. Assim as duas árvores polinizam e geram os frutos, um algodãozinho, com as sementes. Já crescida, a árvore se torna o lar para ninhos de passarinhos, formigueiros, fungos, chancelando assim outros apelidos milenares: “mãe da floresta” ou “mãe da humanidade”. Responsa.

O desmatamento na Amazônia aumenta a distância entre as Samaúmas. Os morcegos ficam com preguiça de voar tanto. A polinização da árvore fica comprometida e o ecossistema por ela provido também.

ciência
Há uns dois meses atrás meu pai me emprestou o livro “A Vingança de Gaia”. O autor é o cientista inglês James Lovelock, responsável pela “Teoria ou Hipótese da Gaia”. Neste livro ele discorre sobre a soberania da Natureza em relação a ação humana e sobre as consequências inevitáveis de mudança climática.

Gaia, na mitologia grega é a mãe da Terra (para quem não tem muita paciência para encarar um texto científico, indico este texto aqui – em tempo, estou a anos luz de entender de ciência com profundidade, o que importa aqui é a essência da ideia). Lovelock enxerga o Planeta Terra como um organismo único, um sistema auto-regulador – como o nosso corpo.

A priori sua teoria não foi levada a sério. Nos anos 1960, ele a apresentou à NASA. A comunidade científica considerava seus argumentos pouco contundentes. Aí entrou na jogada a bióloga Lynn Margulis (dica da Rita Wu). Ela o ajudou a respaldar sua teoria com comprovações científicas.

Margulis (1938-2011) é autora da teoria da simbiogênese (pode ser lida no livro “O Planeta Simbiótico”). Também muuuuito a grosso modo, é um projeto evolucionista que, de certa forma, se contrapõe a teoria evolutiva mais conhecida, a de Charles Darwin. Pesquisando células pré-históricas, ela descobriu que a mitocôndria (o “pulmãozinho” de cada uma de nossas células) é resultado da ação de bactérias. Ou seja, desde os primórdios  da formação da vida, momento os organismos precisam cooperar entre si para existir. Moral da história: ela aposta na colaboração entre as espécies e não na competição entre elas, como prega Darwinismo (uma visão mais feminina da evolução, né?)

Tanto a Simbiogênese quanto a Hipótese de Gaia não são unanimidade na comunidade científica, mas tendo em vista a assombração do aquecimento global, se apresentam como um partido de oposição.

índios
Esteve em cartaz em São Paulo uma exposição no SESC Pinheiros chamada “Adornos do Brasil Indígena: resistências contemporâneas”, a mostra revelava peças e fotos dos belíssimos “acessórios” usados por diversas tribos brasileiras. Cada adorno tem uma simbologia. A pintura corporal, por exemplo, funciona como uma espécie de RG para membro da tribo. Os acessórios com plumas podem representar uma escala hierárquica.

As analogias com os hábitos ocidentais brasileiros são enormes e sugerem a origem da notória preocupação com a vaidade enraizada na cultura nacional (além, claro, do costume de gostar de tomar banho diariamente ;). A exposição no SESC aponta um zeitgeist. A cultura indígena  vem despertando interesse de muitos artistas contemporâneos e foi citada no relatório de tendências do WGSN na apresentação do bureau durante o SPFW em novembro. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, ganha holofote nos meios mais intelectualizados. Em seu livro mais conhecido “A Inconstância da Alma Selvagem” (Cosac Naify, 2002) ele descreve a dinâmica e as simbologias das tribos que pesquisa. Em algumas línguas indígenas não há distinção de gênero, ou seja, a denominação para homem e mulher é a única. A contagem de tempo é outro advento do “homem branco”, na tribo importa a incidência da luz do Sol e as lunações. Os índios estão absolutamente integrados com os processos da natureza, e por isso respeitam profundamente os tempos do próprio corpo, tipo necessidade de sono ou descanso.

O avanço do agronegócio no país ameaça profundamente a demarcação das terras indígenas. O desmatamento e o contato com a civilização traz problemas inéditos aos índios. As doenças e a escassez de alimentos os insere a força na economia “civilizada” e os leva automaticamente à pobreza.

***

epílogo
O contato com a natureza in loco dá aquela pontada nos genes. O inconsciente sussurra: “aí tem um pouco de você”.

livro

errar

“Nem na moda, nem na vida existe certo ou errado. É melhor cometer um erro fundamental do que cair na mesmice mundial”. A frase dita pela editora de moda Regina Guerreiro cai bem para esse momento do mundo. Assumir os erros é tendência.

 

borracha

 

Os youtubers são as celebridades da vez e se dão muito bem com os próprios erros. Como muitos deles gravam em suas próprias casas estão sujeitos as intempéries do cotidiano. Telefone tocando, o cachorro fazendo participação especial… As falhas da gravação deixaram de ser extras e foram incorporadas como linguagem. São inclusive destacadas com filtros diferenciados na edição.

No livro “O Guia Oficial do TED para falar em público” (ed. Intrínseca – tá, me rendi a mais um best seller), o autor Chris Anderson pontua sua desconfiança com o excesso de segurança de palestrantes. Quem lê o blog ou o acompanha nas redes sociais sabe que sou bem fã desta plataforma on-line. Na metodologia aplicada para as palestras a insegurança e a possibilidade constante de errar integram o processo.

Para Anderson, o sucesso do evento também está relacionado com a revalorização da narrativa oral. Ela pode ser notada nas mensagens de voz do whatsapp e na popularização dos pitchings para selecionar projetos, por exemplo. Lembrei de outra frase, esta falada por um designer cuja palestra vi há alguns anos: “se você não consegue explicar sua ideia por telefone, então ela não é boa”.

 

O TED começou modesto e off line em uma universidade da Califórnia. O evento ganhou o mundo graças a internet. De neurocientista a professora de sedução todos têm espaço por lá. Hoje funciona como uma franquia. Acontece em versões locais por meio da nomenclatura TEDx(tema, local).

As palestras do TED não devem ultrapassar  18 minutos. Além de ser uma referência em sua profissão, o candidato a palestrante passa por um rigoroso processo de treinamento. O objetivo é uma conferência concisa e didática, capaz de seduzir o público “leigo” em determinado assunto. As palestras têm registro em vídeo e ganharam dimensão global, por isso o uso de termos técnicos e do academiquês são terminantemente proibidos.

Não há fórmula para palestrar. Pode ser com ou sem power point. Respaldado por um púlpito ou caminhando livremente pelo palco. Usando ou não fichas de lembrete. Já o teleprompter é desaconselhável. A plateia se sente incomodada quando percebe o convidado lendo. A autenticidade do conferencista e sua paixão pelo tema levado ao palco são os denominadores comuns das palestras campeãs de visualizações.

Uma vez selecionado, o palestrante passa por uma preparação de acordo com seu jeito de ser. A fala do convidado é revisada várias vezes pela equipe do TED. Para enxugar muita teoria, ou para capacitar verbalmente quem só tem a prática. Foi o caso do garoto queniano Richard Turere. Ele inventou um incrível dispositivo luminoso para espantar os leões, mas nunca havia explicado ao mundo sua criação. Casos pessoais devem ser o vetor para transmitir a essência de sua ideia. Quem muito fala e pouco faz é rapidamente desmascarado pela plateia.

A mensagem do livro é compartilhar o conhecimento e fazer da sua ideia inovadora o motor de inspiração para outras pessoas.

Há um capítulo dedicado ao traje ideal para falar em público. O autor certa vez subiu ao palco de calça e blusa pretas combinadas com um colete amarelo. Depois descobriu que a plateia havia o apelidado de “abelha”. Como costuma errar bastante na escolha de seus figurinos, transferiu a responsabilidade do capítulo para uma consultora de imagem chamada Kelly Stoetzel. As dicas são bem previsíveis. Usar roupas com as quais você se sinta bem e confortável. Evitar as listras porque elas podem fazer a imagem do vídeo tremer. Esquecer da presença dos sapatos nos pés. Mais vale uma sola no chão do que um salto doendo. A informação mais relevante consiste em usar cores vivas para captar subliminarmente a atenção do público. Vale rosa choque, azulão, laranja.

Mônica Lewinsky usou uma calça preta e uma camisa azul petróleo quando ministrou a palestra “O Preço da Vergonha” em março de 2015. É a conferência mais citada ao longo do livro e um dos TEDs mais vistos, com mais de 8 milhões de visualizações. Depois de uma breve introdução a ex-estagiária da Casa Branca pergunta à plateia: “Quem aqui não cometeu um erro aos 22 anos?”.

As Olimpíadas ajudaram a nos mostrar que o acerto absoluto reserva somente um lugar no pódio. Você já errou hoje?