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sutiã

Em frente ao Parque da Luz no Bom Retiro um vendedor ambulante anunciava:
– Olha o sutiã da novela!

De malha de algodão em diferentes opções de cores, o sutiã era tomara-que-caia, tinha bojo farto, um lacinho entre as taças e três elásticos bem grossos nas costas. Era a versão antropofágica do sutiã strappy.

O modelo traz um novo olhar para os elásticos. As tiras originalmente usadas para ajustar e sustentar agora também servem para ornamentar e se fazerem notar na roupa “de cima”. Sexy.

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sutiã joo moda

 

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sutiã da lacelab

 

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A cantora Céu com um top strappy da Janiero

A peça íntima supriu a vontade da microtendência das tiras anunciada pelos desfiles do verão 2016 e reforçada por Gisele Bündchen em sua despedida das passarelas. No entanto, foi graças a personagem da atriz Sophie Charlotte na novela “Babilônia” (2015) que o sutiã ganhou as massas.

Colcci verão 2016/ divulgação

Colcci verão 2016/ divulgação

 

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Sophie Charlotte em “Babilônia” (2015)

 

Em cartaz até março de 2017 no Museu Victoria & Albert em Londres, a  exposição “Undressed: a Brief History of Underwear” remonta a história das “roupas de baixo” desde o século XVIII até os dias de hoje. O estilista Pedro Lourenço é o atual diretor de criação da grife italiana La Perla e protagonizou um dos vídeos da extensão virtual da mostra.

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corset do século XIX na exposição

Para a revista New Yorker, o escritor Tom Rachman, escreveu o artigo “nossa roupa íntima, nós mesmos” sobre a exposição. Ele propõe um ponto de vista interessante: traça um paralelo entre a lingerie e a diferença de gêneros. “O underwear masculino é sério e sem muitas variações, preocupado apenas com o conforto. Já a lingerie feminina foi feita para esmagar ou ressaltar o corpo”. Contudo, ele destaca um modelo de cueca que tem enchimento “onde realmente importa”, segundo o slogan do fabricante. “Poucos modismos de underwear diminuíram a sexualização. Looks mais andrógenos dos anos 1920 e 1970, coincidem com época de liberação sexual”, ressalta.

Da lingerie o autor vai até o dimorfismo*. “É o termo científico usado para definir a diferença de tamanho entre os machos e as fêmeas”, como algumas espécies de aves, o leão e a leoa… “Muitos acasalamentos são responsabilidade dos machos”, observa. “É o pavão macho que coloca o modelo sexy”. E ele faz uma revelação: “os tamanhos muito diferentes geram a violência para acessar o parceiro sexual e a luta entre os machos da mesma espécie para conseguir o acasalamento”. Pense no Leão Marinho brigando com os colegas para conseguir copular. Para Rachman o ser humano vive a crise entre sua herança animal dimórfica e sua habilidade racional. Neste caso o amor e ter alguém para esquentar a orelha no domingo pode valer mais que a manutenção da virilidade do macho.

Voltando ao artigo… O escritor também cita o underwear sex neutral lançado pela marca sueca Acne. O chamado gender neutral, genderless, gender bending ou fluid ou o bom e velho unissex permeia o mundo da moda.

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linha de underwear da Acne Studio

Aqui no Brasil coleção sem gênero “Tudo lindo e misturado” da fast-fashion CeA deu o que falar graças ao comentário preconceituoso de uma líder evangélica. Já o ator Jaden Smith é um dos adeptos mais estilosos do gender neutral. Ele veio ao Brasil para assistir ao desfile da coleção cruise da Louis Vuitton e usou uma jaqueta teoricamente feminina. Aliás, ele foi a estrela da coleção de verão 2016 da marca. Sua bandeira é  “roupas para seres humanos”.

strappy_jadenMontagem da RG

Se cada fez fica mais difícil aparecer novidades formais nas coleções, a inovação mora no conceito da roupa. A preocupação com o meio ambiente certamente é um ponto importante e a questão de gênero vêm se mostrando outra. Lá trás o guarda-roupa dos homens inspirou a moda feminina, agora eles fazem o caminho contrário. Aliás, por que razão os homens não usam saia? Parece um modelo ideal para a anatomia deles.

Se a moda é um observatório privilegiado das mudanças de comportamento, parece que o muro que separa o masculino e o feminino começou a ruir.

Como mostra a exposição de Londres e o texto da New Yorker, na roupa de baixo as evidências das questões de gênero estão ainda mais explícitas.

O “strappy bra” pode ter aparecido para revelar o íntimo que estava escondido?

 

 

*Finalizava este texto quando foram divulgadas as notícias sobre o nefasto estupro coletivo no Rio de Janeiro. O episódio me lembrou um conto do escritor argentino Jorge Luís Borges chamado “A Intrusa”.

Os irmãos Eduardo e Cristian Nilsen dividem os serviços da prostituta Juliana Burgos e a tratam como um objeto – “uma coisa”. Tudo muda quando ambos se apaixonam por ela (vou dar o spoiler, mas recomendo fortemente a leitura pois é considerado um dos melhores contos da história). Ao perceber que o sentimento nobre vai ferir a virilidade e a parceria da dupla um deles a mata.

O texto trata justamente sobre o dimorfismo que ainda habita o ser humano macho. Foi escrito há mais de meio século. Continua um clássico, infelizmente, não só por sua qualidade literária.

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lingerie renascentista

…mais um pouquinho de Bélgica

As roupas que a estilista belga Véronique Branquinho cria são bem construídas e muito femininas. Ela transportou tais características para sua primeira coleção de lingerie, feita em parceria com a marca Marie Jo, conterrânea e especializada em moda íntima.

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Os sutiãs, bodies, calcinhas, ligas e hot-pants (aquelas calcinhas com cintura alta) carregam um glamour antigo, jeitinho de anos 50. Contudo, sua inspiração veio do século XVI. Mais precisamente de algum dos mestres da pintura do renascimento.

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As “musas” do período não eram modelos e sim as imagens da Eva (aquela mesma do Adão) e da Vênus (a deusa do amor na mitologia romana). Essas figuras foram retratadas a exaustão pelos pintores Lucas Cranach, Giorgione, Raphael e Albrecht Dürer.

The Sleeping Venus or The Dresden Venus, 1510, by Giorgione

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A Vênus Adormecida, Giorgione, 1510

“Quando vejo as figuras nuas dos velhos mestres, sinto que elas não são muito diferentes das mulheres de hoje. E me pergunto: Como eles olhariam suas musas de lingerie?”, declarou a estilista no release oficial da coleção. Alô, Vogue Itália?

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Lucrécia, Lucas Cranach

Segundo entrevista para a Dazed and Confused, Braquinho contou que criar lingerie foi um desafio, pois unir sensualidade e conforto requer maior requinte técnico. As peças foram desenvolvidas em seda, micro-fibra e tule.

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A coleção chega às lojas europeias em meados de setembro.
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A Marie Jo já fez parceria com os também belgas da AF Vandevorst. Algumas peças estavam no Momu da Antuérpia ano passado.
sem categoria

moda pra ler entrevista: Mariana Lima, da Verve

A Verve surgiu de uma maneira bem prática, diferente daquelas histórias que estamos acostumadas de estilista que começou costurando em casa e vendendo para os amigos. A Mariana nasceu em Brasília, mas hoje mora em Ipanema. Ela se formou em marketing e trabalhava como executiva na sua área. Cansou e resolveu mudar de ramo. Ela pesquisou o segmento de moda íntima e viu que havia espaço para uma marca de lingerie de ares boêmios. As principais apostas para se diferenciar foram: estampas e a numeração internacional de sutiã. As estampas diferenciadas, aliás, são o carro-chefe de vendas. Um pouco mais sobre o mercado de lingerie e sobre a grife a própria empresária responde.

O que é mais legal de criar lingerie?
Pensar na mulher se descobrindo e percebendo que esta compra pode ser um mimo, um cuidado com sua auto-estima. O assunto é íntimo e cada mulher reage de acordo com sua história. Umas mais soltas outras menos. Gosto de pensar na Verve como um up no dia da mulher.

Quais são suas musas, seus ícones quando o assunto é lingerie?
Musas são mulheres fortes que tem Verve e fazem a diferença. Por exemplo, Marieta Severo, Claudia Abreu, Andrea Beltrão e tantas outras clientes que não são famosas, mas são mulheres muito especiais.

Como encontrar uma modelagem que se aproxime da maioria, afinal, o Brasil tem muita miscigenação e corpos nas mais variadas proporções?
A numeração internacional de sutiã ajuda neste quesito. É possível ter um tamanho que conjugue duas medidas que nem sempre são proporcionais: as costas e o busto. As calcinhas são mais fáceis. Se a mulher se identificar com nossa proposta, modelagem mais ampla visando o conforto vai se encontrar.

Algum homem dá pitaco na criação?
Temos um sócio investidor que tem extremo bom gosto. Ele mora em Brasília, mas sempre que pode da sua opinião. Achamos ótimo.

A brasileira sabe comprar lingerie?
Acho que está aprendendo. Ela começa a perceber que lingerie deve e pode ser bacana todos os dias não apenas em ocasiões especiais.

Como comprar a lingerie certa?
Experimentando.

Conta a trajetória das lingeries da Verve qual o caminho que ela percorre da sua cabeça até chegar na loja?
Um pouco de inspiração e MUITA transpiração. São muitas etapas para acertar uma modelagem, beneficiar a matéria-prima, comprar todos os insumos e acompanhar a produção de perto.

Quais livros de moda você indica? Tem algum título legal sobre lingerie?
Após a escolha do tema de cada coleção sempre buscamos livros que nos ajudem a solidificar nosso pensamento. Por exemplo, nosso inverno foi inspirado no Egito, consultamos diversos livros nos ajudaram a crescer o conceito da coleção. Recorremos também a revistas que não são apenas de moda, mas de arte, arquitetura, design, flora e fauna.