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“As roupas são capazes de anunciar revoluções, como afirmou a lendária editora de moda Diana Vreeland, em cada esquina de São Paulo há cenas dos próximos capítulo”.

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Esta frase conclui o texto de apresentação do livro “Urbanas”, lançado em maio pela editora Livre Conteúdo.

O impresso derivou um documentário, no qual algumas fotografadas refletem sobre si mesmas, e sobre a condição feminina na cidade. Aqui:

Ambos foram capitaneados pelo editor Ricardo Feldman. Esta que vos escreve (#autopromoção) fez a pesquisa, a entrevista, é co-autora do roteiro do documentário e dos textos de apresentação do livro – uma retrospectiva da moda do século XX, com um capítulo especial para as duas décadas do novo milênio. Registro bem importante do streetstyle nacional feito por uma equipe de jovens fotógrafos desbravadores dos quatro cantos paulistanos. O conteúdo do projeto é um retrato do zeitgest atual. #ficadica

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sutiã

Em frente ao Parque da Luz no Bom Retiro um vendedor ambulante anunciava:
– Olha o sutiã da novela!

De malha de algodão em diferentes opções de cores, o sutiã era tomara-que-caia, tinha bojo farto, um lacinho entre as taças e três elásticos bem grossos nas costas. Era a versão antropofágica do sutiã strappy.

O modelo traz um novo olhar para os elásticos. As tiras originalmente usadas para ajustar e sustentar agora também servem para ornamentar e se fazerem notar na roupa “de cima”. Sexy.

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sutiã joo moda

 

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sutiã da lacelab

 

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A cantora Céu com um top strappy da Janiero

A peça íntima supriu a vontade da microtendência das tiras anunciada pelos desfiles do verão 2016 e reforçada por Gisele Bündchen em sua despedida das passarelas. No entanto, foi graças a personagem da atriz Sophie Charlotte na novela “Babilônia” (2015) que o sutiã ganhou as massas.

Colcci verão 2016/ divulgação

Colcci verão 2016/ divulgação

 

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Sophie Charlotte em “Babilônia” (2015)

 

Em cartaz até março de 2017 no Museu Victoria & Albert em Londres, a  exposição “Undressed: a Brief History of Underwear” remonta a história das “roupas de baixo” desde o século XVIII até os dias de hoje. O estilista Pedro Lourenço é o atual diretor de criação da grife italiana La Perla e protagonizou um dos vídeos da extensão virtual da mostra.

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corset do século XIX na exposição

Para a revista New Yorker, o escritor Tom Rachman, escreveu o artigo “nossa roupa íntima, nós mesmos” sobre a exposição. Ele propõe um ponto de vista interessante: traça um paralelo entre a lingerie e a diferença de gêneros. “O underwear masculino é sério e sem muitas variações, preocupado apenas com o conforto. Já a lingerie feminina foi feita para esmagar ou ressaltar o corpo”. Contudo, ele destaca um modelo de cueca que tem enchimento “onde realmente importa”, segundo o slogan do fabricante. “Poucos modismos de underwear diminuíram a sexualização. Looks mais andrógenos dos anos 1920 e 1970, coincidem com época de liberação sexual”, ressalta.

Da lingerie o autor vai até o dimorfismo*. “É o termo científico usado para definir a diferença de tamanho entre os machos e as fêmeas”, como algumas espécies de aves, o leão e a leoa… “Muitos acasalamentos são responsabilidade dos machos”, observa. “É o pavão macho que coloca o modelo sexy”. E ele faz uma revelação: “os tamanhos muito diferentes geram a violência para acessar o parceiro sexual e a luta entre os machos da mesma espécie para conseguir o acasalamento”. Pense no Leão Marinho brigando com os colegas para conseguir copular. Para Rachman o ser humano vive a crise entre sua herança animal dimórfica e sua habilidade racional. Neste caso o amor e ter alguém para esquentar a orelha no domingo pode valer mais que a manutenção da virilidade do macho.

Voltando ao artigo… O escritor também cita o underwear sex neutral lançado pela marca sueca Acne. O chamado gender neutral, genderless, gender bending ou fluid ou o bom e velho unissex permeia o mundo da moda.

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linha de underwear da Acne Studio

Aqui no Brasil coleção sem gênero “Tudo lindo e misturado” da fast-fashion CeA deu o que falar graças ao comentário preconceituoso de uma líder evangélica. Já o ator Jaden Smith é um dos adeptos mais estilosos do gender neutral. Ele veio ao Brasil para assistir ao desfile da coleção cruise da Louis Vuitton e usou uma jaqueta teoricamente feminina. Aliás, ele foi a estrela da coleção de verão 2016 da marca. Sua bandeira é  “roupas para seres humanos”.

strappy_jadenMontagem da RG

Se cada fez fica mais difícil aparecer novidades formais nas coleções, a inovação mora no conceito da roupa. A preocupação com o meio ambiente certamente é um ponto importante e a questão de gênero vêm se mostrando outra. Lá trás o guarda-roupa dos homens inspirou a moda feminina, agora eles fazem o caminho contrário. Aliás, por que razão os homens não usam saia? Parece um modelo ideal para a anatomia deles.

Se a moda é um observatório privilegiado das mudanças de comportamento, parece que o muro que separa o masculino e o feminino começou a ruir.

Como mostra a exposição de Londres e o texto da New Yorker, na roupa de baixo as evidências das questões de gênero estão ainda mais explícitas.

O “strappy bra” pode ter aparecido para revelar o íntimo que estava escondido?

 

 

*Finalizava este texto quando foram divulgadas as notícias sobre o nefasto estupro coletivo no Rio de Janeiro. O episódio me lembrou um conto do escritor argentino Jorge Luís Borges chamado “A Intrusa”.

Os irmãos Eduardo e Cristian Nilsen dividem os serviços da prostituta Juliana Burgos e a tratam como um objeto – “uma coisa”. Tudo muda quando ambos se apaixonam por ela (vou dar o spoiler, mas recomendo fortemente a leitura pois é considerado um dos melhores contos da história). Ao perceber que o sentimento nobre vai ferir a virilidade e a parceria da dupla um deles a mata.

O texto trata justamente sobre o dimorfismo que ainda habita o ser humano macho. Foi escrito há mais de meio século. Continua um clássico, infelizmente, não só por sua qualidade literária.

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carão

Folheando a edição passada da revista britânica “The Gentlewoman” a campanha de outono inverno 2015 da marca J.W.Anderson chamou a atenção por sua simplicidade. É esta foto aqui:

jwanderson

J.W. Anderson é o estilista norte-irlandês que garfou o British Fashion Award de 2015 por suas coleções masculina e feminina. Ele foi apontado pela revista i-D como “o designer mais instigante de nossa geração”. Depois de despontar na semana de moda de Londres, atualmente ele comanda o estilo da grife espanhola Loewe, do grupo LVMH.

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“Ela está bêbada”. “Acho que ela está morrendo”. “Vou pedir para minha mãe cuidar dela”. Um grupo de crianças expõe suas opiniões sobre campanhas publicitárias de moda. Os comentários são divertidos (vídeo em espanhol com legenda em inglês). A primeira análise é justamente sobre uma campanha da Loewe.

O trabalho é da artista visual e performer espanhola Yolanda Dominguéz. Seus projetos são relacionados à indústria da moda e da beleza e têm um viés irônico e bastante crítico.

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São poucas as marcas que se arriscam em imagens menos produzidas e mais realistas. Há mesmo um certo ar de superioridade nessas caras e bocas das fotos de moda. Diana Vreeland explica: “o que vende é a esperança”. Já Marx diria que é o “fetiche da mercadoria”. Comprar a roupa de determinada marca, principalmente das de luxo, é comprar um sonho bem embalado. Começa na passarela, continua nas campanhas, se prolifera nos editoriais, no look do dia das blogueiras e termina no ponto de venda, cujas vitrines costumam acompanhar a história (ou o storytelling, na versão gourmet) que a marca pretende contar naquela temporada.

Os desejos de consumo são muitas vezes motivados por um curta-metragem mental que a peça de roupa reluzente na vitrine tem o poder de criar. Você arrancando elogios e chamando a atenção do seu alvo amoroso em um evento? Você sendo poderos@ e botando para quebrar em uma reunião de trabalho? E por aí vai. Inconsciente, este fanfarrão. Consumir é também sobre ser aceito.