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Clarice Lispector + Luiz Fernando Carvalho

“Correio Feminino” é o novo projeto do diretor Luiz Fernando Carvalho. Inspirados em textos da Clarice Lispector, os oito episódios, com dez minutos de duração cada um, vão ao ar aos domingos dentro do Fantástico, com estreia prevista para o dia 27.
Maria Fernanda Cândido como “Helen Palmer” em “Correio Feminino”
O roteiro foi adaptado dos livros “Correio Feminino” (2006) e “Só Para Mulheres” (2008 – ambos da editora Rocco). São textos que a escritora assinou sob pseudônimos em épocas e jornais distintos. Ela usou três assinaturas: Tereza Quadros, para o jornal Comício em 1952; Helen Palmer, para o Correio da Manhã em 1959 e Ilka Soares, para o Diário da Noite em 1960. O escolhido pelo diretor para a versão televisiva foi o segundo, “nome com jeito de Twin Peaks”, diverte-se fazendo referência a falecida Laura Palmer, da série dirigida por David Lynch.
Maria Fernanda Cândido será Helen Palmer e as dicas serão transmitidas em um programa de rádio e TV. Porém, seu rosto quase não aparece. É sua voz que conduz Alessandra Maestrini, a ex-modelo Luiza Brunet e a top Cíntia Dicker, estreando como atriz. Elas representam respectivamente a mocinha, a jovem senhora e a mulher madura – faixas etárias contempladas nos conselhos de Clarice Lispector.
Luiz Fernando Carvalho é o diretor de “Hoje é Dia de Maria”, “Capitu”, “Afinal? O que querem as mulheres”, de novelas como “O Rei do Gado” e “Renascer”, além de sua obra prima, o longa “Lavoura Arcaica”, baseado no livro homônimo de Raduan Nassar (Tem que ver! Sério). Seus trabalhos são extremamente autorais e por isso participa intensamente de todas as etapas. Quando o ponto de partida é uma obra literária, busca máxima fidelidade à narrativa do autor. 
Durante a palestra que proferiu na Casa do Autor Roteirista, na última edição da FLIP, o diretor revelou que para a montagem da série “Os Maias”, convocou uma especialista em Eça de Queiroz para estar ao seu lado na ilha de edição e avaliar se os diálogos estavam condizentes com o que escreveria o autor português.
A seguir trechos da entrevista que fiz com o diretor e na qual ele falou sobre seu processo criativo em “Correio Feminino”, sobre a modernidade do texto de Clarice e sobre os sentimentos, que não mudam.

O diretor Luiz Fernando Carvalho,
entre Cíntia Dicker, Alessandra Maestrini (esq.), Maria Fernanda Cândido e Luiza Brunet
TV Globo/ Divulgação

A ideia e o formato
“Tenho este projeto faz uns três anos. Quando o criei não sabia exatamente que formato teria. Era uma coisa que girava na minha cabeça e que só depois de muito tempo chamei a Maria Camargo para escrever. Era interessante pensar a partir de uma máscara da Clarice: Helen Palmer, que, no meu modo de sentir, é em si mais que um pseudônimo. Na máscara, percebemos a própria Clarice escoando pelas frestas, nas entrelinhas. E esse desenho a Maria Fernanda Cândido descreveu, percorrendo o trajeto entre Clarice e Helen Palmer, com cumplicidade. Não fez simplesmente uma voz, uma narração, muito ao contrário, ela encarnou um jogo duplo, essa coisa híbrida que é a Helen Palmer. Desde sempre percebi que os Almanaques não teriam uma duração de dramaturgia, entre os 20 e 40 minutos, talvez por isso fiquei um tempo sem saber o que fazer com a ideia. Foi quando, por acaso, encontrei o Luiz Nascimento [Diretor do Fantástico] e ele me perguntou se eu não tinha um projeto. ‘Eu tenho a Helen Palmer’, respondi”.

#bookdodia



A narrativa

“Me interessou ser um diálogo, da Clarice criar um diálogo, ter uma proximidade, uma cumplicidade com as leitoras, como se fosse quase como um facebook da época. Entendi que no conjunto de conselhos dos almanaques Clarice ela falava temas para a mulheres jovens e maduras. A estrutura foi formada por três mulheres: uma praticamente pós-adolescente; uma jovem mulher, um pouco atrapalhada, cômica; e uma mulher madura, que poderia estar em um momento de crise existencial mais forte do que qualquer outras”.

Direção de Arte 
“A linguagem do projeto, do ponto de vista estético, é filhote das propagandas, dos ensaios de moda daquele período (anos 1950 e 1960). Nas revistas, encontrava-se página inteira amarela com a mulher vestida de vermelho, apoiada em um carro verde. Esse minimalismo das cores e do “não-cenário” era muito característico do excelente design de propaganda da época. Despojamos ao máximo de elementos visuais, centrando nas cores e nos figurinos para que “a voz” se tornasse preponderante”.
As três mulheres
“Pensei de imediato na Luiza (Brunet). Faz algum tempo que pensava em trabalhar com ela, que sempre me pareceu uma mulher repleta de emoções, a beira de precipitar-se. Luiza traz um certo ar de época, de beleza clássica, que eu considerava uma referência fundamental para a estética do trabalho. Posso dizer, sem medo de errar, que Luiza é quem dá o tom, quem talvez até tenha me dado o tom de como fazer a coisa toda, desde o momento que a escolhi. Depois dela foi fácil imaginar as pontas da narrativa, não que as pontas não sejam importantes. São fundamentais, mas a Luiza é o centro de tudo, é uma referência do passado e ao mesmo tempo do futuro.

Luiza Brunet
TV Globo/ Divulgação

Andando pela rua, a vi (Cintia Dicker) em uma propaganda. Fiquei encantado pelo carisma que sua imagem exalava. Sem falar naquelas cores: os cabelos avermelhados, a pele salpicada de canela, os olhos azul piscina. Mas foi só um instante, logo tudo isso se revelou apenas como uma moldura. Cintia é pura sensibilidade, o oposto do que seria uma modelo deslumbrada com sua beleza.

pergunta: O fato da Luiza e da Cintia trabalharem como modelo pesou na decisão, uma vez que a estética do projeto tem a ver com as propagandas dos anos 1950? Sim, isso me orientou muito. Mas gosto de pensar que a atuação das duas se completa com o contraponto encantador da Alessandra Maestrini, que traz uma interpretação de bailarina, de cinema mudo, com um frescor de comediante chapliniana”.

Alessandra Maestrini
TV Globo/ Divulgação


temas eternos 
“Existe algumas passagens e alguns conceitos (presentes nos textos) que caíram. Alguns eram machistas e ultrapassados, por questões morais, a sociedade já tinha superado. Como resultado final acho incrível a modernidade do texto da Clarice. Parece que foi escrito ontem. A verve, a limpeza, o despojamento. E a modernidade de certas questões. Até para gente refletir e ver que muita coisa não mudou. Tivemos grandes avanços, mas também temos grandes paralisias. Acho que os textos escolhidos espelham esses pontos que continuam absolutamente iguais. Não por um atraso da sociedade, mas por condição humana mesmo. Amar alguém. Ser amado de volta. Desejar alguém e ser desejado. Resolver a crise do relacionamento. A roupa para ir ao primeiro encontro. Não importa a classe social dessa mulher, não importa se ela é antenada, se ela é estudada, se ela fez pós-graduação. Aconteceu em 1800, em 1950 e vai acontecer em 2300. As questões sobre afeto e relações humanas são eternas. Achei legal cortejar essa perenidade do texto da Clarice. Somos modernos, pós-modernos… Será”?

As roupas e o tipo…

(…)Exemplifiquemos. Uma jovem muito tímida deseja aparecer, anseia por ser admirada e ocupar lugar de destaque na admiração de todos. Essa jovem, um tipo delicado, fino, procura quebrar a harmonia de sua silhueta usando um vestido ousado, de cor e modelo contrastantes com seu tipo suave e delicado. Com essa preferência está demonstrando insatisfação consigo mesma, não por possuir um tipo de ingênua, mas porque não consegue atrair atenção masculina.
(Correio Feminino)

A representação do feminino e o amor
“Muitas vezes você tem a figura feminina, mas sem ter a sensibilidade feminina. Ter uma diretora mulher não significa ter um olhar feminino. No Rio de Janeiro, muitas jovens lindas são absolutamente machistas. Moldam seus corpos para desejo masculino. O rosto não é dela. A bunda não é dela. São do cara que ela deseja. Se transformaram em figuras sem subjetividade. E isso no século que estamos. Neste ponto acho moderna a reflexão da Clarice de ‘estar vestida com o seu sentimento’. Ela fala: ‘mas se você quer uma ajudinha maior: usa uma fita amarela’ (referência ao primeiro episódio da série). A fita amarela é para te deixar mais segura, para ter fé. Fé no amor”.

*** 






TV Globo/ Divulgação




E o figurino?
Luciana Buarque e Thanara Schönardie foram as responsáveis por criar o guarda-roupa da série. Elas contaram como foi:

Referências e inspirações

Thanara: O Luiz pediu um editorial de moda. Usamos as edições da Vogue Americana dos anos 1950 e as propagandas do período também. Pesquisamos no acervo on-line da revista. Nos editoriais da Vogue tinha um gestual, formas gráficas, propostas pelo próprio corpo feminino. Além das orientações do Luiz, pensamos muito na figura da Helen Palmer, ou seja, da Clarice. Ela é a mulher idealizada da escritora para conversar com esse público feminino, que não é o seu público original da literatura. As três personagens (a menina-moça, a jovem senhora e a mulher madura) seriam as mulheres ideais, que colocam em prática os conselhos.
Clarice, a stylist
Luciana: A gente foi se deparando com várias menções da Clarice sobre os hábitos de indumentária da época. Tinha trechos nos quais ela falava das cores, do xadrez. Abusávamos de elementos de vestuário típico dos anos 1950 na mais velha, e já introduzíamos itens dos anos 1960 na adolescente. Uma situação de praia, por exemplo, a senhora usava um maiô e a menina já usaria um biquíni. E quando não tinha uma dica da Clarice a gente propôs.

Cores e Formas
Thanara: Tivemos o cuidado de todas terem a mesma paleta com intensidade diferentes. A mais jovem usa tons mais claros, a madura mais escuras e a “jovem senhora” tons intermediários entre as duas. Elas têm uma profusão grande de sentimentos, desejos e vontades que traduzimos em volumes amplos e cinturinha marcada.

A cor do glamour
Tecnicamente, o preto é a inexistência. Mas, em termos de moda feminina, é a cor do momento, ultrapassando as outras todas em sedução e elegância. Deixando de ser agora prerrogativa do inverno, é a cor que será usada também neste verão, não de maneira clássica e discreta, mas para ser ultrachic e encabeçar as tendências as tendências da moda. (Correio Feminino)
Elegância e Beleza depois dos 40
(…) Se você já passou dos 40, então, muito cuidado. Já não é uma mocinha, e precisa manter viva a sua atração feminina. Sem ridículo, é claro! Uma das proibições, por exemplo: cor vermelho vivo. O vermelho é uma cor gritante, que chama atenção, e sua beleza, depois dessa idade, deve ser discreta,  ser “descoberta” aos poucos, nunca exposta assim. (Correio Feminino)
O que você não deve usar
Se você é morena, não use certos tons de verde e fuja do marrom e do bege como o diabo foge da cruz. Evite igualmente o preto, se estiver muito queimada da praia; neste caso, prefira o branco que realçara e dará vida ao seu bronzeado. (Só Para Mulheres)





design, entrevista, viagem

um novo vintage em Buenos Aires

Buenos Aires é uma cidade incrível para os “arqueólogos” da moda. A estilista Ana Paula Ponce sabe bem disso. Nascida em La Pampa, ela é fã das ferias americanas” (como são chamados os brechós aqui na Argentina) e há três anos criou a Bi Order.

A marca tem duas linhas. A primeira segue os padrões, primavera/ verão – outono/ inverno, e a segunda, chamada “vintage”, é perene e feita com roupas que ela garimpa, reforma e transforma.

peças vintage e do primavera/ verão 2013 da Bi Order

Paula cria roupas cheias de glamour. Adora as décadas de 1920, 70 e 80 e Alexander McQueen. Prefere não se atrelar as tendências.

fotos da linha Vintage

coleção verão 2013

Além das roupas Paula também gosta de buscar acessórios e objetos antigos. No espaço que abriu neste ano na Galeria Patio del Liceo (que falei no outro post) tem um cavalo de carrossel antigo,  luminárias de época. “Num futuro próximo queria que vender também objetos da Bi Order”, conta. Com um grande sorriso no rosto ela mesma atende os clientes.

essa é Paula é da turma do Margiela e odeia fotos 😉

decor da Bi Order



Vai lá:
Bi Order – Galeria Patio del Liceo
Av. Santa Fé, 2729 (entre Laprida e Anchorena)
A loja não fica aberta sempre – antes da visita envie mensagem via facebook

história, viagem

camisolas e rendas na feirinha de San Telmo

As feiras de antiguidade são um clássico em quase toda metrópole do mundo. A partir delas podemos dar uma olhada no passado da cidade e de certa forma entrar um pouco nas “casa” das pessoas e vasculhar a decoração, o guarda-roupa, os hábitos a mesa… O que mais gosto de fuçar nestas feirinhas são as camisolas, anáguas e rendas. No último domingo estive na tradicional Feira de San Telmo aqui em Buenos Aires e fiz umas fotos de algumas dessas peças ofertadas por lá. Olha aí:

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Há peças muito bem preservadas, e também há roupas novas feitas com as rendas antigas. O câmbio tá bem favorável, então é possível comprar uma peça de seda pura com rendas em perfeito estado por 250 pesos, cerca de R$125,00 (os comerciantes locais só aceitam dinheiro vivo, hein!).

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Pelo maior contato da Argentina com a Espanha é bem comum encontrar em San Telmo a renda valenciana (originária da cidade de Valência) que pelo menos nas minhas andanças nas feirinhas do Bexiga, Benedito Calixto e no MASP nunca tinha reparado. É um trabalho bem delicado e muito bonito.

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detalhe da renda valenciana
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uma anágua 

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A capital argentina tem uma tradição muito forte de antiquários, o que inclui muitas opções de lojas com roupas vintage.  #ficaadica para os fãs de peças de outrora.