Tags

Comportamento

história

moda pra ler sete anos: nostalgia e o futuro

Em sua última entrevista como diretor de criação da Hermés Jean Paul Gaultier justificou sua saída da grife explicando que os ciclos das histórias de amor duram três e sete anos. Ele falou mais uma quantidade de anos que não lembro, mas que não vem ao caso porque o estilista francês deixou a grife depois de sete anos.
Essa fala dele me veio a cabeça porque hoje o moda pra ler completa 7 (sete!) anos. Por isso fiquei com vontade de relembrar publicamente as primeiras sensações da minha história d’amour* com o blog.
*A palavra amor foi feita para se dizer em francês, né? A pronuncia do “our” obriga a fazer biquinho e provoca até uma cosquinha no lábio superior. Experimente!
O Moda pra Ler é um dos primeiros (dizem até que é o primeiro) blogs de moda do Brasil. Uma mistura de sensações me fez criar a página, listo as duas principais: 1- vontade de trabalhar com jornalismo de moda e não conseguir entrar no mercado; 2- vontade de escrever algo distinto do que era feito na imprensa da moda.
Pressionar pela primeira vez com o botão “publicar” foi traumático. Sentia vergonha de me expor e medo de ser criticada. Depois de alguns dias recebi um comentário de um desconhecido. Fiquei emocionada! Em março do mesmo ano o Moda pra Ler foi indicado no site da Capricho e em agosto na revista. Ao mesmo tempo recebia os comentários de outros blogueiros de moda (Oficina de Estilo, Moda sem Frescura, About Fashion, Descolex) iniciantes como eu. A blogosfera da moda começava a se formar.
Ser sua própria editora era extremamente excitante. Fiquei completamente viciada em alimentar o blog. Passava horas e horas pesquisando na internet, fazendo listas e listas de possíveis pautas (e continuo). Até hoje acho que uma das melhores coisas de ter um blog é a independência de ritmo, e de pauta. O tal “gancho” jornalístico e a obsessão pelos pageviews são limitadores.
Aos seis meses de blog tentei me credenciar para o São Paulo Fashion Week e não consegui. Abusada, publiquei a recusa no blog. Na época as semanas de moda dos EUA e da Europa já credenciavam “blogueiros”. E em 2006 consegui meu primeiro freela de moda para a extinta revista “Moda” da Folha de S. Paulo. No SPFW seguinte, janeiro de 2007, o moda pra ler, e outros blogs fizeram a primeira cobertura “blogueira” do São Paulo Fashion Week. Por ironia do destino nunca mais tentei mais credenciar o blog no evento porque passei a cobrir o evento na equipe do GNT Fashion, onde trabalhei como roteirista por três anos. Em dezembro daquele ano o Moda pra Ler ficou em terceiro lugar como “melhor blog de moda” no Prêmio Chic.

A entrada efetiva no mundo da moda antecipou para dois anos o ciclo de amor estabelecido por Gaultier. O envolvimento cotidiano e obrigatório com o mundo da moda transformou o blog, o deixou mais analítico porque já não sentia a necessidade de relatar todas as novidades.

Por muitas vezes pensei em abandonar o blog. Por alguns períodos de fato o deixei de lado. Porque o mundo da moda às vezes cansa. A moda é um assunto muito sério, poderoso, importante. A moda enquanto criação, enquanto comportamento é um tema inesgotável e capaz de depurar todos os âmbitos da sociedade. Essa costumeira redução da moda ao consumo e ao status é cansativa e repetitiva.
… mas o mundo (digo, planeta Terra) não acabou no dia 21 de dezembro e os tempos são de otimismo aqui no Brasil. Ando um pouco embebida nesse espírito marqueteiro de renovação, e porque não o usarmos para o bem? Sabe aquela música “Tempos Modernos”, do Lulu Santos? De letra simples e direta: “eu vejo um novo começo de era, de gente fina elegante e sincera, com habilidade para dizer mais sim do que não”. É por aí.
Olho para trás e vejo que o moda pra ler foi, e é, o meu melhor portifólio e a minha melhor vitrine. Cada e-mail e comentário de estudante dizendo que o blog é inspirador, elogios de leitores, de colegas de profissão, e saber que o blog é citado em cursos de moda como referência de conteúdo, e até a inveja de algumas pessoas (acreditem, no mundo real/ físico tem dessas coisas 😉 são grandes estímulos.
Diferente de Jean Paul Gaultier, não vou terminar aqui meu ciclo de amor aos sete anos (até porque não estou envolvida em interesses comerciais que no fundo resumem o fim da história entre o estilista e a marca, mas não tira em absoluto o charme do seu discurso), e sim renovar os votos.
***
E então…A novidade. Resolvi por em prática uma ideia antiga: a partir de hoje o Moda pra Ler aceita colaborações afetivas.

Convido os leitores fieis, jornalistas, fotógrafos, produtores de moda, estilistas, aspirantes ou veteranos, que se identificam com a linha de pensamento do blog a mandarem seus trabalhos. Release não vale, hein? Son bienvenidos trabajos de gente de otros países.

Se interessou? ANTES de mandar qualquer coisa escreve para modapraler@gmail.com que te explico como contribuir.
cinema, história, livro

na TV e no tecido

Arpillera chilena

Postergo um pouco o terceiro e último post (primeiro, segundo) sobre artistas que conheci em Buenos Aires, mas continuo na América do Sul.

Semana passada vi “No”, o título chileno indicado a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A trama tem uma abordagem original dentro do gênero “filme sobre ditadura militar”, tão popular no cinema latino-americano. O mexicano Gael Garcia Bernal vive o publicitário René Saavedra, o diretor de criação da campanha realizada em 1988 para o plebiscito que restabeleceria a democracia no Chile. O filme mostra que a ideia de propor o “No” (não para a permanência do General Augusto Pinochet) como um produto, usando todos os recursos clássicos da publicidade, conquistou a opinião de quem vivia alheio a ditadura.


NO, La Película – Trailer Oficial from Fabula on Vimeo.

O resultado foram propagandas políticas com linguagem de videoclipe, alegres, coloridas, repletas de figurinos de lycra e cabelos com permanente, característicos da década. “O que verão a seguir está marcado dentro do atual contexto social”, fala o protagonista para justificar seu trabalho em diferentes momentos da história.  O filme foi realizado com uma tecnologia que simula uma imagem antiga, de videocassete, para não haver conflito visual com o material de arquivo amplamente usado.
***
“Arpillera” é um trabalho artesanal, uma variação do patchwork. Seria um cartum feito com tecido. Durante a ditadura chilena a técnica passou a ser utilizada por mulheres como forma de denunciar a situação política do país. Ou seja, de certa forma também servia como publicidade.


O filme me lembrou da exposição “Arpilleras: da resistência política chilena” que esteve cartaz em algumas capitais brasileiras ano passado, e de cujo site tirei essas imagens. Para quem se interessou o catálogo pode ser baixado aqui.

arquitetura, design, entrevista

pra-ti-cidade

Tomar mate, levar marmita para o trabalho, usar transporte público ou bicicleta são alguns dos hábitos portenhos. Pensando nestas ações cotidianas as estilistas argentinas Tatá Rachi e Clari Querejeta criaram a grife de acessórios a Kitchenette.

cestinha de bicicleta removível
kit toalha de pique-nique e bolsa para levar o mate (chimarrão) e a garrafa térmica
lancheira para a marmita

A dupla utiliza toalhas de mesa de plástico como matéria prima. Podem ser antigas ou garimpadas em viagens. Os acessórios têm um estilo propositalmente kitsch. “Nos inspiramos nas cores, nas avós, nas coisas de avós, no cinema, nas coisas em ordem, em um bom disco, ou em um disco ruim, em uma taça de chá com limão bem gostosa e em montanhas de tecido”, revela Tatá.

almofada para a garupa da bicicleta
porta-coisas para a garupa da bicicleta

Há pontos de venda espalhados por Buenos Aires ou sob encomenda: http://www.facebook.com/kitchenette.objetosfelices

***

E o lifestyle paulistano e a moda?
Com as malas quase prontas para voltar para São Paulo e o final de ano batendo na porta é inevitável o clima de balanço e de comparações. Vou sentir muita falta do meu estilo de vida em Buenos Aires. A cidade é menor, plana, arborizada, o transporte público funciona, é barato, e boa parte das linhas ônibus circulam 24h por dia. Até nas baladas mais “coxinhas” a mulherada se equilibra no salto, ajeita a saia, forma fila indiana e faz sinal pro ‘colectivo’ na madrugada.
O Pedro Lourenço declarou para uma  coluna social: “A mulher brasileira não tem vida urbana, não precisa de roupa para o cotidiano. Nem de bolsos, porque não toma metrô, joga todos os pertences no carro, que é sua cela.” O carro virou um cômodo móvel da casa. E o que carro tem a ver com moda? A observação do designer foi a respeito de suas clientes, mulheres com alto poder aquisitivo, que além do carro devem ter um motorista. Contudo, vale a pena refletir sobre a frase muito bem colocada do estilista. 
De maneira geral, a moda feita hoje no Brasil é pensada para a vida urbana? E para a vida urbana sem carro? 
Em São Paulo é comum sair de manhã para trabalhar e seguir para a faculdade, curso, ou para um bar, e prolongar-se até a balada noite a dentro.  
Como seria o figurino ideal para uma pessoa que tem o tempo preenchido de manhã até a noite? E para quem não tem carro? Teria bolsos? Seria feito de tecidos térmicamente confortáveis e resistentes? Bolsas anatômicas e fáceis de carregar? Sapatos confortáveis? Blusas e vestidos com bom caimento para levantar e abaixar o braço com conforto? Shorts e saias com um comprimento adequado para, por exemplo, não deixar espaço de pele para grudar no banco do ônibus nos dias de calor? E os bravos ciclistas paulistanos? O que falta acessórios lindos e mais baratos para eles? 
E o seu dia-a-dia? Há uma demanda de uma moda utilitária, atrelada a qualidade e a praticidade? Que atenda as necessidades de uma vida “ao ar livre”? É essa a vanguarda da moda do nosso tempo? Acho que sim.