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A Mônica e seu vestidinho vermelho anteciparam tendências. No gibi, os personagens do cartunista Maurício de Souza usam sempre a mesma roupa. Steve Jobs era e Mark Zuckerberg é adepto do chamado “guarda-roupa cápsula”.  O primeiro combinava malha preta de gola rolê e calça jeans. Já o fundador do facebook sempre usa camiseta cinza. Como nada é por acaso no mundo dos bilionários, o minimalismo tem justificativas bem pragmáticas. Uma publicitária norte-americana chamada Matilda Kahl detectou que perdia um tempo precioso do seu dia escolhendo a roupa para o trabalho e por isso elegeu um uniforme. Papo de publicitário, a gente sempre desconfia ;), mas a garota personificou um zeitgeist e por isso bombou nas redes sociais. Ah sim! Aos finais de semana ela se permite variações.

Uma amiga psiquiatra atende pacientes de todas as classes sociais me disse certa vez: “independente do dinheiro, o ser humano quer sempre amar e se sentir amado”. Neste podcast sobre tristeza, outra psiquiatra afirma: “se tem uma coisa que apavora o mundo capitalista é (ouvir): ‘nada que você tem para me oferecer me serve”. O modelo de substituição de consumo falhou porque ao longo de seu meio milênio de existência, mesmo criando todas as possibilidades produtos e serviços compráveis, não conseguiu sanar o vazio existencial e a tristeza que habita todo o ser humano. E para a roda continuar girando a indústria farmacêutica lucra com as pílulas da felicidade.

Olhando o copo meio cheio, este “vazio” é, ou deveria ser, a força motora para evoluir, criar e fazer diferente. Assim, as chances de amar e ser amado aumentam. Sabe quando os cantores terminam o relacionamento e depois lançam um disco incrível?

O consumo de moda tem protagonismo neste “vazio”. A roupa é a nossa primeira comunicação com o mundo. A peça tal, da marca tal, tem o poder de criar atalhos para a aceitação em determinados grupos e dar a sensação do tão almejado “ser amado”.

A moda em sua vertente comercial inaugurou o sistema de substituição de desejos a cada estação climática. Estamos em época de temporada de desfiles internacionais e parei para pensar sobre a quantidade de roupas apresentadas e na função delas para o nosso dia-a-dia. A estilista Manu Rodrigues da Cabana Crafts (tem matéria minha sobre ela na revista da gol págs.62 e 63 #selfie) trabalhou na Hermés e na Huis Clos. Fazia roupas maravilhosas, contudo, quando reparou no próprio figurino se deu conta que se restringia ao jeans, a camisa e ao sapato baixo. A ideia de viver com menos também tem a ver com aceitar a dura verdade de que talvez você não vá a tantas festas assim para ter tantos vestidos deslumbrantes e sapatos de salto luxuosos. “Aceita que dói menos”, diz o dito popular.

A Uniqlo* fez de seu dono o homem mais rico do Japão indo na contramão do fast fashion no que toca ao frenesi das microtendências. Lá você encontra roupas atemporais o ano todo. A rede nipônica se diferenciou na dinâmica do varejo da moda com uma proposta que se aproxima da lógica do desenho industrial. São peças clássicas, lisas e básicas, com as quais as possibilidades de combinações se multiplicam. (*Contudo, o volume de peças comercializado e a quantidade de lojas da empresa espalhadas pelo mundo estão em pé de igualdade com a H&M, Zara, e outras do gênero, por isso fica aquela pulguinha atrás da orelha quanto a procedência da peças). O sucesso da empresa comprova que apenas uma pequena parcela da população se anima em fazer do look do dia um acontecimento.

Pensando na lógica do desenho industrial, a moda tem seus clássicos: o óculos Ray-Ban aviador, o All-Star de cano alto, o tailleur de tweed da Chanel e o trench coat da Burberry.  A marca inglesa conhecida por sua padronagem xadrez foi uma das primeiras a propor a inversão da lógica dos desfiles e se adaptar ao ritmo da internet. As roupas desfiladas na semana de moda não vão mais esperar a virada da temporada para chegar nas lojas. É o see now, buy now – ou o veja agora e compre agora. As grifes de luxo já tinham tentado se adaptar ao aperto de passo das fast fashion e acrescentaram ao calendário de lançamento anual mais duas coleções a Cruise e Pre Fall. Pelo visto, elas não foram suficientes. Com tanta oferta e tanto estímulo, os impulsos de consumo tem que ser resolvidos no aqui e agora. Se deixar para amanhã outra marca garfa o consumidor.

Na contramão do sistema estão as marcas pequenas, adeptas do slow fashion. Elas são capitaneadas por designers que preferem deixar o processo criativo maturar e o produtivo levar o tempo que for necessário. Dar tempo ao tempo é um luxo. Implica em um custo mais elevado no produto final e em pouca variedade. Os eleitores destas marcas ainda não são somam porcentagem suficiente para pontuar nas pesquisas de opinião, mas a tendência já angaria alguns votos. Quem sabe na próxima eleição a representatividade aumenta?

Encontrar seu estilo é muito importante para consumir menos e melhor. Para saber o que mostrar por fora, é preciso compreender o que mora por dentro. Quando isso acontece a necessidade de vestir tantas fantasias sociais e a vontade de consumir diminuem.

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Aproveito este post para divulgar o Desengaveta (aqui), nova atração do canal GNT/ Globosat. De um jeito leve e divertido o programa propõe repensar a maneira que consumimos moda. Ele é feito por uma equipe maravilhosa na Boutique Filmes, a qual eu integro com alegria como diretora de conteúdo/ roteirista.

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por favor,

O alto-falante das estações e vagões de trem e de metrô em São Paulo parece ter aumentado o número de recados nos últimos anos. “Antes de entrar no vagão espere os outros passageiros saírem”, “cuidado com o seus pertences”, “não estimule o comércio ambulante” e o clássico mundial “atenção ao vão entre o trem e a plataforma”.

Esta ultima frase é uma das marcas registradas de Londres. “Mind the Gap” (em inglês) estampa toda sorte de souvenires da cidade. Contudo, por falta de espaço, não colocam a frase inteira que vem precedida de um “please” (por favor) e sucedida por um “between the train and the platform” (tal qual São Paulo). Em Londres, aliás, muitos dos avisos ao público espalhados pela cidade vem antecedidos de “please”.

A convivência com estranhos é a condição básica da vida na metrópole. Aqui em São Paulo é bem comum ouvir um “_cença” em voz bem baixinha e zero interativa para comunicar que está ocupando o assento ao seu lado no transporte público. Também é de praxe escutar um “bom dia” sussurrado e de cabeça baixa quando se vê obrigado a compartilhar o elevador corporativo com desconhecidos. Quando o “com liçenca” ou “bom dia” são ditos com vigor e todas as letras as reações podem ser diversas. Sorrisos, indiferença ou simplesmente a surpresa com a animada educação. Às vezes, pode mesmo parecer estranho soltar as três “palavrinhas mágicas” (com licença, por favor e obrigada). É como se elas abrissem um portal para o espaço e para a intimidade do outro.

Os ingleses são conhecidos pelo seu jeito polido de tratamento (apesar de serem os campeões mundiais da imprensa sensacionalista). Mas não é sobre a etiqueta urbana que trata este post, muito menos para falar que “os ingleses são mais educados que os brasileiros”. Mas talvez os anos de “please” acumulados tenham enraizado a palavra no dia-a-dia do cidadão londrino. Numa escala muito maior está a mensagem subliminar do conteúdo audiovisual.

No Dia da Mulher fui com minhas queridas amigas “do meio” no escritório do Google Brasil ver o Simpósio Global sobre Gênero e Mídia. O evento aconteceu em parceria com o Instituto da Geena Davis. A instituição fundada pela protagonista de “Thelma e Louise” é dedicada a monitorar a representação da mulher no cinema e na TV. A palestra começou com a animação institucional chamado “See Jane”.

A problemática da representação na mulher na mídia começa ainda na programação infantil. O slogan da campanha da organização é: “se ela pode ver, ela pode ser”. O conteúdo audiovisual que as pequenas “janes” do mundo assistem desde pequeninhas vai influenciar profundamente em suas escolhas adultas.

Apesar das questões de gênero no Brasil estarem longe de serem resolvidas, segundo o Instituto, o país é território promissor. Tem um dos maiores índices de representatividade feminina no setor em todo mundo (tipo o 4º da lista). E destaca-se o grande número de mulheres nos cargos de produção e produção executiva (esta última, uma espécie de diretor de negócios do filme. Quem pega o Oscar de melhor filme é o produtor. Ele que viabiliza o filme como um negócio). No entanto, as cabeças criativas, leia-se diretor e roteirista são predominantemente homens (e brancos) no Brasil. Respectivamente 80% e 70%. E não por acaso, mais de 63% da população consideram a imagem da mulher representada de maneira demasiadamente sexual.

O Simpósio terminou com a apresentação de uma ferramenta maravilhosa que calcula o tempo de tela e o registra o conteúdo dos diálogos dos personagens nos filmes. Daqui em diante, o monitoramento da representatividade feminina será portanto matemático, impossibilitando maiores desculpas.

O teste de Bechdel já havia alertado. São pouquíssimos os filmes nos quais os diálogos das atrizes não girem em torno de um homem e da sua relação afetiva. Conversando com a minha amiga Katia, craque em “Coaching” (espécie de terapia e orientação profissional bastante em voga), ela me explicou que a relação amorosa representa apenas 1/12 da vida de uma pessoa. Contudo, talvez por culpa dos contos de fadas que moldaram a infância das meninas até a Geração Y, o peso social do relacionamento conjugal parece ser muito maior para uma mulher adulta.

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No audiovisual o cenário anda mudando rápido, é verdade. Muito mais mulheres têm tido oportunidades. Depois do Simpósio, conversamos entre amigas e analisamos nossas próprias trajetórias. Mesmo com mais referências culturais, maior disposição para a labuta e a melhor formação do que boa parte dos homens do alto clero do mercado, as oportunidades para cargos de maior responsabilidade e chefia sempre foram menores. Além de ser bem comum ficarmos estigmatizadas por determinados trabalhos. Nosso crédito parece ter os juros mais alto.

A invenção do cinema aconteceu na Europa, porém, não engatou em marcha rápida porque o continente foi assolado por duas guerras e a produção cinematográfica ficou bastante comprometida. Em clima de tristeza, o entretenimento é uma ótima opção de fuga da realidade. Os astutos produtores de cinema dos Estados Unidos logo “mind the gap” e aproveitaram para construir e consolidar a maior indústria cinematográfica do mundo. Assim, os EUA sairam da Segunda Guerra fortalecidos financeira e politicamente, além de estrategicamente bem respaldados pela liderança no inconsciente coletivo cinematográfico mundial.

Antes do feminismo retornar com força à agenda do mundo e antes do netflix, lembro de ter lido uma edição especial National Geographic Brasil sobre o tema. Uma das reportagens tratava sobre a influência das novelas no comportamento das mulheres brasileiras. Havia a constatação que as protagonistas tinham um impacto positivo na vida das mulheres de regiões mais carentes do país. Havia inclusive um dado sobre o impacto das novelas na redução da natalidade. Contudo, a hipersexualização da mulher e a representação de classes, constatada na pesquisa anteriormente citada ainda é uma contradição nestas produções televisivas.

Em 2012 uma Lei Federal garantiu que parte da produção dos canais de Tvs a cabo, inclusive dos internacionais, fosse “Made in Brazil”. Além de garantir o avanço e a profissionalização do mercado audiovisual local, foi um passo importante para ampliar as possibilidades de formação do “inconsciente coletivo” nos próximos anos e acostumar os brasileiros com a produção nacional. O cinema avança no mesmo caminho. Os resultados não serão imediatos. Para os EUA, por exemplo, incrustar seus mínimos detalhes culturais na subjetividade do mundo foram quatro décadas.

Apesar da percepção sobre os caminhos sempre mais tortuosos para as mulheres, o cenário é bastante promissor. O cuidado com o “vão entre o trem e a plataforma” é cada dia maior. O próximo passo é vir o “por favor” bem pronunciado. Menos por obrigação, mais por vontade de conviver.

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Colagem para o Kansas City Medical Journal.

Depois de ler uma matéria fiquei um pouco stalker da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel e bastante curiosa sobre a ciência do cérebro. Quando você se concentra em um tema passa enxergá-lo por todos os lados. Em um domingo de preguiça esbarrei com “Tempo de Despertar”, filme com Robin Willians (o médico) e Robert de Niro (o paciente) baseado no livro homônimo do neurologista e escritor Oliver Sacks (1933 -2015). O enredo prova que para entender o que temos dentro da cabeça é preciso dominar as biológicas, as exatas, mas principalmente as humanas. E o próprio autor deu o exemplo em vida.

No TEDx acima a pesquisadora brasileira revela a diferença entre o cérebro humano e o cérebro dos outros animais: “Nós cozinhamos”, resume. Os outros animais gastam muito tempo procurando e digerindo o alimento. Pensa na Sucuri. Ela come um boi inteiro com chifre e tudo depois fica um tipo um mês digerindo. Cozinhar os alimentos economiza o trabalho das enzimas digestivas. Por isso gastamos menos calorias para absorver o alimento e nos sobra mais tempo para fazer outras coisas.

Em uma conversa despretensiosa com a minha amiga e psiquiatra Camila, comentamos que o cérebro é paradoxalmente supervalorizado e desvalorizado na nossa sociedade. É supervalorizado por sermos felizes proprietários de massa cinzenta desenvolvida nos achamos melhor que as outras espécies, e é bastante comum usá-la para oprimir a mãe natureza e seus semelhantes. Por outro lado, investimentos em ginástica, pilates e outros esportes para manter o corpo em forma, mas nem sempre lembramos que o cérebro também precisa se exercitar. Ele também fica flácido. A soma de muitos cérebros sedentários gera grandes estragos.

A preocupação com a boa alimentação, com noites bem dormidas e com a manutenção das relações afetivas são a chave para um cérebro saudável, mas não é tudo.

Em outro TEDx (sim, sou um pouco viciada em TEDs), a escritora Susan Cain, discorre sobre a introspecção. Antigamente, a vida rural não propiciava grandes transformações. Tudo era altamente previsível e não necessitávamos de tantas máscaras sociais para conseguir conviver em sociedade, porque esta pouco se transformava ao longo da vida. Com a urbanização e a aceleração da sociedade de consumo, na qual tudo ficou mais efêmero, o ser humano precisou se adaptar a uma certa representação social – tipo de ator mesmo. As possibilidades de escolha aumentaram. Emprego, relacionamento e estilo de vida podem mudar a gosto do freguês. Nada mais precisa ser definitivo como era na época da fazenda. Contudo, foi preciso aprender a ser mais político para conseguir conviver, por exemplo, com aquele colega de trabalho ou chefe com valores de vida diametralmente opostos aos seus (para não dizer diretamente que ele é insuportável) e engolir sapos em prol da manutenção do salário e do círculo social.

As pequenas “traições” à sua subjetividade, no entanto, vão aos poucos gerando pequenos traumas. Um alí. Outro aqui. E quando você vê seu cérebro “deu ruim”. Não há alguém (exceto aquelas pessoas que vivem isoladas sem contato com outros seres humanos) que vai passar a vida inteira sem ter algum momento de pane cerebral. Fazer terapia continuamente serve para exercitar seu “seu eu interior”, segundo minha amiga Dra., e entender o que é realmente a sua essência e o que os outros (que “são o inferno”) projetam em você.

E a autotraição pode ser imperceptível. Todo dia subvertemos nossa herança primata. Não vamos dormir quando o sol se põe. Não tiramos uma soneca depois de comer. Nos exercitamos muito menos do que nosso corpo cheio de articulações e músculos potentes pede, entre outras demandas selvagens. Ao contrário, cada vez menos há tempo para respeitar as demandas do organismo. Não é por acaso que a onda slow anda em voga.

A introdução do filme argentino Medianeras mostra a relação da arquitetura com as patologias da psiqué. Além da sensação de claustrofobia promovida pelos apartamentos cada vez menores, as janelas minúsculas limitam a entrada de raios solares. Menos luz, menos absorção de vitamina D. A substância estimula a produção endorfina – o hormônio da felicidade. A depressão e a ansiedade viraram doenças crônicas nas metrópoles. Outro filme, “Terapia de Risco”, revela como uso indiscriminado de ansiolíticos e antidepressivos dá margem para um thriller. Em um dos diálogos da trama duas mulheres comentam sobre os remédios que tomam como quem compara marcas de xampu.

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Social Interaction and Teamwork Lead to Human Intelligence

A internet mudou a dinâmica das coisas e está todo mundo meio sem saber o que será do futuro. Entender o bê-a-bá do funcionamento da nossa cabeça e como ele impacta no dia-a-dia pode ser um jeito recomeçar sob uma perspectiva mais saudável. A inteligência e a criatividade, quando usadas para o bem, emocionam. Isso nunca vai mudar.