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O exagero tem função didática. O mundo da moda ajuda a explicar. O exagero é a coleção que vai para passarela. É o conceito. Propõe a ideia central e mostra o DNA da criação. Na prática e nas araras das lojas as roupas são básicas, assim como os sentimentos cotidianos são menos superlativos. Mas o show é importante para pontuar a subjetividade.

Aprendi a lição na Argentina. E descobri que não foi por acaso que criamos a Bossa Nova, voz e o violão, e eles o Tango, baseado no som denso do acordeão. Esta introdução serviu para preparar os leitores à analogia forte que minha amiga Paula (argentina e adepta do mundo vintage) fez sobre os relacionamentos hoje em dia:

– “É como um tratamento do AA”, disse
– Como assim?, perguntei assustada
– Tem que ser um dia após o outro. Tá todo mundo muito viciado em si mesmo. Quando você se toca que está gostando de alguém, ou afim de realmente se dedicar a um projeto, tem que entrar em um rehab do “eu” para fazer a coisa acontecer.

Chegamos a conclusão que o vício no individualismo é culpa do walkman. Com a possibilidade ter música de maneira solitária foi matando a convivência. Em seguida surgiu o videocassete e ir ao cinema ganhou certo tom solene. Menos deslocamento, menos relação com a cidade. A tecnologia foi avançando e fomos nos entocando. Hibernando. Precisando cada vez menos dividir a vida com outros seres humanos. Aí veio a internet e ofereceu a possibilidade de compartilha-la sem sair de casa. E conviver é quase uma opção.

A conversa com a Paula aconteceu ao pé da árvore em uma manhã quente de dezembro nos lindos Bosques de Palermo. Ela me voltou à cabeça depois que assisti “Questão de Tempo”, em cartaz no Netflix. O filme foi escrito e dirigido por Richard Curtis, conhecido pelos roteiros de “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Quatro Casamentos e Um Funeral”. Nele o protagonista Tim (Domhnall Gleeson) tem o poder de voltar no tempo, mas não muito distante. Consegue corrigir as gafes e melhorar atitudes.

Atenção: Spoiler. A conclusão do filme é bem simpática. Além de usar o poder para conquistar o amor de Mary (Rachel McAdams), ele descobre que sua melhor utilização é para deixar o dia-a-dia salpicado de momentos felizes.

(Ah! A direção de arte do filme entrega algumas diferenças culturais. O protagonista é um advogado bem sucedido. Vai ao trabalho de metrô. A mulher é a editora dos livros do Ian McEwan. Fica em um quarto compartilhado após dar a luz. Não está dito, mas certamente era um hospital público).

A vida não é feita de grandes emoções e sim de pequenas alegrias. A teoria ganha adeptos e se contrapõe ao ideal de grandes conquistas materiais.

A arquiteta Lina Bo Bardi não gostava de domingos. Profissional apaixonada, seus dias úteis tinham mais sabor porque podia trabalhar, produzir e conviver com os seus colaboradores. Miuccia Prada se consagrou ao criar roupas que vão de manhã à noite. Uma celebração ao dia-a-dia da mulher moderna. Já a cronista Nina Horta afirma que “cozinheira não é quem faz um suflê maravilhoso, é aquela que sabe o que fazer para o jantar”.

Neste TED o cientista explica o “Estudo sobre Desenvolvimento Adulto” da Universidade de Harvard. O resultado é uma espécie de fórmula da felicidade. A pesquisa começou em 1938. Acompanhou pessoas de diferentes origens e classes sociais pela vida inteira. A solidez do laços de afeto e o comprometimento com o trabalho fazem uma pessoa feliz.

Em minha última visita a Buenos Aires me hospedei na casa da Paula. Em uma das noites ficamos conversando sobre as crises dos relacionamentos e sobre os desafios da vida. Drama sem culpa. No dia seguinte, um sábado, quando levantei ela já estava pronta para sair, ajeitando a casa a todo vapor. E em meio a dinâmica frenética de suas atividades, repentinamente ela se distraiu com a janela, olhou para fora e deixou escapar sorridente: “que lindo é estar de manhã em casa” e voltou à arrumação.

E falando em longo prazo… Hoje este blog completa 10 anos! =)

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tramas futuras

 

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Alexandra Kehayoglou trabalhando em Buenos Aires/ Foto: Emiliano Granado©/ T Magazine (NYT)

 

“A moda prevê as revoluções”, disse a lendária editora de moda Diana Vreeland em entrevista reproduzida no ótimo documentário “O Olhar tem que viajar”(em cartaz no Netflix).

Anda comum ouvir comparações do momento atual com a efervescente década de 1960 (na qual Diana foi a responsável por trazer inovações à imprensa de moda). O impacto da introdução da minissaia no guarda-roupa feminino ecoa até hoje. A “mini” anteciparia o grito de liberdade feminina e dos jovens de maneira geral. No final da citada década começou o movimento hippie, que avançaria através da década seguinte devidamente incorporado à moda.

No último São Paulo Fashion Week falou-se muito da moda feita à mão. E no trabalho artesanal pode morar o verdadeiro savoir-faire da moda brasileira, sempre tão questionado e procurado.

Mãos que fazem” – reportagem interessante sobre o processo criativo de marcas e estilistas durante o último SPFW.

Seria essa volta ao artesanal o movimento hippie do nosso tempo? Hippie wi-fi, como brincou Pablo, amigo argentino, representante do país que mais exporta hippies malabaristas. Parece que não.

O que se viu no SPFW foi o “feito à mão” sem nostalgia. Pelo contrário. É uma tentativa de unir as pontas do conhecimento, com inovação e muita vontade de dialogar com o mercado.  De uma vez por todas ser incluso no sistema da moda sem assistencialismo.

E não é só a moda que prevê as revoluções. Todas as manifestações culturais o fazem. Talvez as artes plásticas saiam algumas pegadas na frente das outras. Representantes dos laboratórios de tendências mais conceituados do mundo costumam recomendar a observação atenta da arte contemporânea para os aspirantes a coolhunter. A sensibilidade dos artistas costuma ser uma seta de indicação rumo as mudanças de comportamento futuras.

Como observadora novata do mundo das artes, graças a convivência com os amigos entendidos Rogério, Marina e ao G>E, estou aprendendo a  olhar instalações, performances e eventos artísticos do tipo “até meu filho fazia”, como vulgarmente costuma-se dizer da arte contemporânea. Ainda estou, e talvez sempre estarei, um pouco condicionada com as referências da moda, e minha própria anteninha entra em curto quando os dois mundo se conectam.

Foi assim com o trabalho da argentina Alexandra Kehayoglou, de 33 anos, responsável pelo cenário do desfile de verão 2015 do Dries Van Noten. A imagem do final da apresentação, com as modelos pousadas em cima do tapete, foi uma das mais divulgadas daquela temporada. Alexandra tem ascendência grega e herdou da família o conhecimento das técnicas de tapeçaria.

Valerio Mezzanotti© / The New York Times

Dries Van Noten, verão 2015 na Semana de moda de Paris/ Foto: Valerio Mezzanotti© The New York Times

O vídeo a seguir mostra o processo de confecção do tapete:

A brasileira Maria Nepomuceno, de 39 anos, também aposta em técnicas têxteis. Ela cria estruturas gigantes usando fios, cordas, além de outros materiais e técnicas que remetem a trabalhos manuais, como contas e miçangas.

A artista deitada em uma das obras da exposição “Afetossíntese” de 2008

Suas instalações propõem conexões entre os espaços. Algumas obras inéditas da artista ficaram em cartaz recentemente na Galeria Baró em São Paulo.

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Exposição “Universo em expansão” Galeria Baró, SP/ Foto: Galeria Baró/ Divulgação

Neste vídeo, em inglês, para a mostra “Tempo de Respirar” que Maria realizou na Inglaterra, a comunidade da cidade foi convocada para ajudá-la a realizar a obra.

Hoje não se fala em economia colaborativa, crowdfunding? O processo criativo da artista para esta determinada exposição trouxe um pouco disso.

Os trabalhos de ambas artistas também se relacionam muito com o universo do 3D (cinema, impressoras).  Referência que apareceu forte nas passarelas brasileiras em roupas cheias de texturas.

Na arte ou na moda… Revolução à vista? Tendência ou resistência? O tempo dirá. O que fica. Quem fica. Ele sempre diz.

livro

diga-me o que vestes, que te direi quem és

Fechando a trilogia (1, 2) de posts sobre os “novos” livros, durante visita rápida a mi Buenos Aires querido ♫, me encantei por “Grandes Vestimentas” do ilustrador portenho Javier Velasco (em uma de minhas livrarias favoritas por lá #dica). Em formato retangular, é um compilado de tiras temáticas com cinco desenhos de trajes célebres, seja pela roupa em si, ou por quem a usava.

“Grandes Vestimentas”, Javier Velasco (3 de 3)
 – clique na figura para ver a galeria de imagens

#bookdodia

O autor descreveu seu processo criativo, do primeiro rabisco ao livro:

“A ideia do livro surgiu há muitos anos. Um amigo apareceu com um suéter muito estranho e eu, de brincadeira, perguntei se ele tinha roubado do Bill Cosby. Como as pessoas que estavam na roda não ligaram a roupa a pessoa fiz um desenhinho rápido do suéter para explicar quem era.

personagens de TV dos anos 80

Não tenho interesse especial por roupa ou pela moda, mas gostava da ideia das vestimentas identificarem personagens e juntá-las por categoria. Na ocasião ainda não existia todas as facilidades da internet, então comecei a recortar revistas, mas dava muito trabalho e deixava minhas mãos coloridas de tinta. Com o tempo (e a internet) fui retomando o trabalho e postando as tiras no meu blog.

presidentes latino-americanos
líderes pela paz
punk
ídolos anos 90
pilotos
A Galería Editorial tinha vontade de publicar trabalhos meus. A ideia inicial não era esse livro, mas como as tiras estavam prontas foi mais fácil. Desenhei mais algumas para publicá-lo.

Hanna Barbera

figurinos lendários
sexy symbols
Percebi que é um livro que interessa muita gente, além dos fãs de quadrinhos ou de moda. Já vi gente tapando os nomes dos personagens para brincar de adivinhar”.
grandes estilistas – esse não tá no livro

***
Falando em Bill Cosby, teve até votação especial para eleger seu melhor suéter. Confira o resultado: http://billcosby.com/polls. No vídeo ele comenta o vencedor e outros tricôs emblemáticos: