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arquitetura, cinema

um filme para o meu avô

um amor “sem concessões ao barroco”*

*Texto escrito para o site da Ocupação Vilanova Artigas no Itaú Cultural e publicado também no FFW

O professor de roteiro advertia que adaptar uma história real para a ficção pode ser uma tarefa árdua. Um roteiro de ficção precisa de uma estrutura, e de certa lógica, já os fatos da vida real nem sempre fazem sentido.

Camisa e o paletó do smoking do meu avô
André Seiti/Itaú Cultural©

 

Em 2009 me deparei com vida de Vilanova Artigas acumulada em caixas e pastas em um quatro na casa dos meus pais. Desenhos e mais desenhos.
Artigas foi um arquiteto do “breve século XX”, segundo o conceito do historiador inglês Eric Hobsbawm. Ele nasceu durante a Primeira Guerra e morreu antes da queda do Muro de Berlim. Era comunista. E pôde viver a Guerra Fria que pautou o período in loco. Morou nos Estados Unidos, fez seu próprio “on de the road” nos anos 1940, antes do Jack Kerouac, e passou alguns meses na União Soviética mais tarde, em 1953.
As palavras de Artigas seduziram alguns e incomodaram outros como o governo militar, por exemplo . Vovô tinha uma verve potente, mas dizia as coisas mais belas quando desenhava. Seu traço era livre e preciso e o enfrentamento do papel em branco foi o desafio favorito no mundo, ponto de convergência entre a razão e a emoção. Lugar onde seus sonhos ganhavam forma. E ele tinha muitos. Dedicou a vida a colocá-los em prática.
Os rascunhos dos artistas sempre me pareceram mais interessantes do que a obra final. Promovem aquela adorável subversão de espiar a intimidade alheia. Conviver os desenhos do Artigas foi o primeiro passo para tentar retomar nossa convivência de quatro anos.
Minhas memórias a seu respeito foram construídas graças às muitas e muitas histórias contadas por minha avó, pelos meus pais e por alguns amigos dele com quem convivi desde pequena. Uma sequência de fotos feita no inverno de 1983 na casa do Campo Belo, a segunda residência do arquiteto, projeto de 1949 – me ajudou dirigir as cenas mentais. Nela, visto um conjuntinho de moletom vermelho e seguro uma amostra de carpete verde (nos anos 1980 os apartamentos da classe média costumavam ter piso de carpete). As amostras de material de construção que ele recebia aos baldes eram brinquedos divertidos. A da foto decorou a sala da Barbie por um tempo.
Ser “neta do Artigas” é nascer com uma bagagem cultural privilegiada, é acostumar-se a viver em locais bem projetados e sentir-se muito triste sem luz natural. Contudo, também é nascer coadjuvante. Por isso, durante muito tempo a pergunta “Você nunca pensou em ser arquiteta?” soou como uma ofensa. Costumava a me referir ao papo sobre arquitetura como “arquitetês”.
Aprendi o básico da língua por osmose, ainda que não domine sua gramática E esta ficha caiu em um momento bastante trivial. Uma colega de trabalho organizava o casamento e reformava o apartamento simultaneamente comparava o valor da decoração de flores do salão de festas e o preço cobrado pelos arquitetos para fazer o projeto executivo da obra. Optou por pagar o primeiro e dispensou o segundo, preferindo dar um “jeitinho”. As flores ficaram lindas e obra custou três vezes o planejado. Assim, compreendi que a profissão do meu avô era vista como um luxo e não como uma necessidade pelos não alfabetizados em “arquitetês”.
Comprar um projeto de arquitetura é comprar um plano. Um sonho. É subjetivo. E os brasileiros nunca foram muito bons em planos e investimentos a longo prazo. Artigas entendeu este calcanhar de Aquiles nacional desde cedo. Ele amava o Brasil e criou efetivamente, desenhando em muitos papeis, o projeto para o país melhor. Começou a colocar o plano em prática quando fundou a FAU-USP em 1948 e depois liderou a reforma de ensino da instituição em 1962. A solução era bastante objetiva: formar profissionais humanistas, instruídos para construir efetivamente uma sociedade mais justa.
Artigas argumentava que um aluno de primeiro ano não poderia ser tratado realmente como um ser “sem luz”, tal qual sua etmologia (do latim alumnié = “sem luz”). Pois, ele já acumulava experiências de viver em casas e em cidades. O teto da FAU-USP é totalmente transparente para iluminar as mentes e as pranchetas dos estúdios de projetos.
Nos desenhos das casas de Artigas as salas são amplas, os quartos pequenos e os banheiros poucos. Artimanhas que obrigam a interação familiar. A convivência era outra bandeira dele, porque só ela explicita personalidades, promove e supera os conflitos absolutamente humanos.
A curiosidade sobre o meu avô foi nutrida pela faculdade de jornalismo e instrumentalizada na especialização em roteiro de cinema. Tinha, portanto, uma história com uma curva dramática potente, protagonista com conflitos internos e externos bem definidos, e dois pontos de virada no cômodo ao lado na casa da família.
Minha busca maior no filme foi tentar sentir como era estar com ele. Assim, no documentário “Vilanova Artigas: O arquiteto e a luz” (que também dirigi) os entrevistados emprestaram suas sensações. Tanto na convivência pessoal, como nas conclusões viscerais sobre vivenciar uma obra sua.
“Sem nenhuma concessão ao barroco”, disse o Artigas sobre o projeto da FAU-USP em 1973. Nesta jornada comecei a compreender o meu avô. Esta frase talvez resuma sua personalidade, seu estilo de projetar e sua atitude em relação ao mundo. Ele buscava a simplicidade, a essência e o necessário, a razão, o amor – pelas pessoas e pelo fazer. Artigas amou muito. Qualquer semelhança com a ficção será mera coincidência.
entrevista

maquiagem-arte: entrevista com Theo Carias

maquiagem de massinha por @theocarias1

Intro.

O dia em que você olhou um retrato seu, tirado na surdina por terceiros, e percebeu que a cútis não tem mais o mesmo desempenho sobre o flash chegou. O Dorian Gray interno despertou e fez o pacto com BB Cream. É árdua a tarefa de admitir que o tempo está passando. O alívio vem quando fuçando na banca de jornal a matéria “bisturi de verão” (tipo tendência de plástica da estação) ainda lhe parece surrealista. Por hora viva o avanço da tecnologia cosmética indolor.

Mas e o “efeito batom”? Ele pode estar influenciando nossos desejos de consumo por produtos de beleza? Esse comparativo econômico (primo do índice Big Mac) analisa o desempenho da economia mundial sob o recorte do mercado da beleza. Quando a economia está em crise é mais comum comprar itens de beleza que costumam ser mais baratos do que as roupas, por exemplo. Se for mensurar todos os tutoriais de maquiagem do youtube publicados desde o inicio da crise dos EUA em 2008 até hoje, “efeito batom” é  um terremoto. Lembrando que para as grandes marcas de luxo as linhas de beleza são estratégicas. Não tem dinheiro para o tailleur? Um esmalte resolve seu desejo por Chanel.
A súbita necessidade por maquiagem me despertou também muita curiosidade sobre como o tema é abordado e retratado no mundo da moda. Fuçando nos meus livros encontrei um chamado “Extreme Beauty em Vogue”, que ganhei de Natal do meu irmão e na época não dei muita bola. É na verdade o catálogo delux de uma mostra que aconteceu em 2009 reunindo fotos maravilhosas da Vogue América, assinadas pelos musos da fotografia de moda (Richard Avedon, Irving Penn, Helmut Newton, Steven Meisel e Klein). E quanto potencial como plataforma de expressão a maquiagem tem!

#bookdodia

Irving Penn, Agosto, 1990
Algumas fotos estão aqui neste vídeo:



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A entrevista.

Depois de entrevistar a Milly no post passado, fui bater na porta do Theo Carias. Além de ser o mago das sobrancelhas, ele desenvolve um trabalho autoral bem marcante na maquiagem. O conheci antes da crise de 2008, quando fiz uma pauta para revista Moda da Folha de São Paulo sobre “as cores das brasileiras”. De lá pra cá muita coisa mudou. O mercado da beleza do Brasil se expandiu e  internacionalizou. E o Theo também mudou. Ele concentrou forças em seu estúdio (espaço muito charmoso por sinal) e passou a ministrar aulas de auto-maquiagem e de maquiagem criativa. Um pouco do papo tá aí:
(Desde antes da crise até agora) Vejo as mulheres brasileiras ousando mais…
Na maioria dos casos a inspiração vem de uma celebridade. No dia-a-dia, observando a rua, vejo pouca gente com uma maquiagem mais trabalhada.
Falando em copiar…
Vejo que tem muita informação de beleza, de imagens artísticas, e uma liberdade muito grande de trabalho, mas pouca identidade (no trabalho de boa parte dos maquiadores). Há muita cópia de referências de internet, do pinterest, de redes sociais (e todas geralmente muito retocadas). Percebo pessoas mais preocupadas em reproduzir do que buscar inspiração dentro de si para desenvolver um trabalho autoral. É importante estar informado e atualizado, por outro lado, tanta referência pode influenciar mal. Eu mesmo prefiro evitar ficar vendo muita referência (ou pelo menos, referências de maquiagem diretamente) para o trabalho emergir de maneira mais visceral.

@theocarias1

Maquiagem como plataforma de expressão…
Montei o curso para tentar ensinar os meninos como tirar a inspiração de dentro deles mesmos. Faze-los entender o que eles gostam de verdade para compreender o próprio DNA. Na primeira aula eles levaram um manequim para casa e criaram com massinha. Desssa forma pude avaliar o processo de criação deles, e por aí já observar a leveza da mão e a maneira como encaram as texturas. Foi interessante ver que alguns se propuseram a criar e outros copiaram. No curso também mostrei muita referência de artes plásticas, como o Mark Rothko, que eu gosto muito. A intenção era tentar fazê-los abrir a cabeça, e o coração, e tentar trazer as sensações que surgiam para a prática da maquiagem. Foi bem interessante. É essencial buscar a sua verdade para conseguir desenvolver um trabalho autoral.

decoração do estúdio de maquiagem @theocarias01

Recado aos jovens maquiadores…
Quando busco um assistente gosto de ver aquela ansiedade de participar e de mostrar trabalho, mas é importante ter repertório. Por exemplo, quando um diretor de arte pede uma maquiagem inspirada no modernismo, se ele não sabe do que se trata o termo não vai conseguir fazer o trabalho.

Hoje os maquiadores começam com tudo pronto…
Acho todo mundo era mais criativo quando tinha menos produtos de maquiagem. Quando comecei era preciso tirar leite de pedra para conseguir chegar aos resultados.

@theocarias01

Escolhi a maquiagem como forma de expressão…
Fiz decoração. Fiz roupa. A maquiagem foi para onde direcionei minha carreira quando cheguei em São Paulo (Theo é cearense). No começo ninguém acredita que você pode fazer tudo com gosto.

Momento vida real…
Hoje há uma preocupação em mostrar a “vida real”. É legal, mas é preciso um pouco de devaneio para a criação. Hoje vejo que estamos vivendo um momento onde tudo está banal, mas acredito que há sempre um filtro natural que salva os trabalhos consistentes, com história.

maquiagem para campanha da Melissa

Equilíbrio entre maquiagem artística x vida real…
Meu carro chefe é fazer sobrancelha, mas sempre tenho a oportunidade trabalhar em produções que demandam uma maquiagem mais criativa. Na moda tento levar um pouco do artístico, ousar quando é possível. Não costumo funcionar muito bem quando me pedem para copiar igualzinho. Gosto mais de criar a partir de uma referência e desenvolver um conceito específico para trabalho que estou fazendo.

Theo fazendo arte.

Sobrancelhas…
Comecei a fazer as dos amigos e o Celso Kamura me deu o toque para levar a sério. Nem sempre a mulher pode estar maquiada. Falamos olhando no olho, então a sobrancelha deve estar arrumada. É a moldura dos olhos. O formato mais orgânico dá um ar mais suave ao rosto. As formas geométricas calculadas deixam o semblante artificial. Uma cliente de rosto anguloso tinha a sobrancelha com ares diabólicos. E ela se incomodava, dizendo que as pessoas faziam um pré-julgamento por causa disso. Fui mexendo aos poucos e seu rosto mudou. Porém, pelo contato próximo com as mulheres fico pensando se esse trabalho que arrumei não é uma desculpa para sentar e conversar todos os dias =).

Todos querem a mesma coisa…
Sou psicólogo e paciente. Atendo advogada, jornalista, fotógrafa. Elas vem aqui e quando tem aquele evento especial elas falam: hoje eu tenho que estar… linda! Todos queremos a mesma coisa: ser feliz, ser aceito e ser bonito.

Toda mulher tem algo bonito no rosto…
Pode ser uma mulher muito feia, mas tem os cílios longos, por exemplo. Não é fácil pensar assim, ainda mais se pensar nos padrões de beleza pré-estabelecidos. Tem que pensar no trabalho de beleza sempre como uma ferramenta para melhorar o que você tem.

Mulher pode tudo…
E é muito interessante esse universo feminino. É muito louca a vida de uma mulher… As auto-cobranças. É muito cruel. É um eterno “não pode”: não pode se descuidar, não pode engordar, não pode ficar cansada… Dizem que as mulheres são loucas. Claro, com tanta coisa para pensar! Os homens têm uma posição muito cômoda na sociedade. Mulher é um bicho muito forte, muito danado. Incrível. Mulher tem que se pintar porque mulher pode tudo.

arquitetura

arquitetura em roupas de criança

Edificio Louveira
Foto: Pedro Kok©

Sempre achei as obras do arquiteto (e meu avô) Vilanova Artigas (1915-1985) um prato cheio para inspirar coleções de roupas: por seu conceito, por suas suas linhas geométricas, por suas cores… A marca infantil La Moustache apostou. O resultado é a coleção “vilanova[tudonovo]”. Olha aí: