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Elsa Schiaparelli & Miuccia Prada

…continuando o post anterior. Lembrei que a parceria entre Baz Luhrman e Prada não começou com “O Grande Gatsby”. O diretor foi o consultor criativo da mostra “Schiaparelli & Prada: Impossible Conversations” que esteve em cartaz no Museu Metropolitan em Nova York durante a verão de 2012. Ele dirigiu as conversas entre as duas estilistas. Tá no fim do post. O sotaque da Prada falando inglês é imperdível!

A mostra propôs um diálogo discursivo e criativo entre as duas brilhantes criadoras italianas, Elsa Schiaparelli e Miuccia Prada. Eram sete “conversas” entre as duas, nas quais seus respectivos elementos criativos se tocam – as fotos ilustram. Como não vi a expo, tô fazendo o post baseado no catálogo que é maravilhoso.

#bookdodia
The Surreal Body
Wallis Simpson usando Schiaparelli, Vogue Paris, Julho 1935/ Prada Verão 2000

The Surreal BodySchiaparelli, Harper’s Bazaar, Fevereiro 1935/ Prada Inverno 2002-3

Pensando no tempo de maturação do inconsciente coletivo de quem viu a mostra naquele ano e no tempo do desenvolvimento das coleções, uma rebarba do diálogo entre as duas estilistas italianas deve estar pipocando em vitrines aqui e alí… Aliás, talvez no toque surrealista na coleção verão 2014 da própria Miuccia Prada.

Prada Verão 2014:

Tanto Schiap (íntima) quanto Prada criam para a mulher moderna, que desconhece a barreira entre “a roupa para o dia” e a “roupa para a noite”, pois ela precisa estar elegante e preparada para ambas ocasiões em virtude da vida agitada que leva.

Hard Chic
Schiaparelli, Vogue Paris, Setembro 1938/ Prada Inverno 2004-5
Elsa e Miuccia são sociólogas da moda, ou seja, sabem identificar os desejos de consumo das mulheres porque são conscientes do mundo que as cercam, e além disso profundas conhecedoras da história, não só da moda, mas do mundo (o que é a moda se não um recorte possível para compreender a história da humanidade?). Ambas sempre souberam balizar muito bem suas coleções. Com os alicerces bem fincados têm a licença poética para subverter os padrões do “belo” na moda.
Ugly Chic
Schiaparelli, Vogue Paris, 1927/ Prada Inverno 1996-97
Prada Verão 2013 – Calçados polêmicos bem ao estilo “Ugly Chic”

Schiaparelli emergiu na época do florescimento da alta-costura na Europa. Contudo, sua marca registrada na moda é um caminho híbrido com a arte, graças ao seu envolvimento com os protagonistas do movimento surrealista.

Waist Up, Waist Down
Wallis Simpson usando Schiaparelli, Vogue, junho  1937/ Prada Verão 2011

Já Prada, que, vale ressaltar, é socióloga por formação, desponta nos anos 1980, se firma nos 1990 e hoje acumula o posto de estilista mais copiada da moda, com um impulso nada desprezível do filme “O Diabo veste Prada”, que popularizou sua marca, e os meandros do mundo da moda.

Naif Chic
Schiaparelli, Vogue Paris June 1949/ Prada Verão 2006

#livro Prada Verão 2011/ Schiaparelli Verão 1938

Talvez no embate “moda é arte” more a principal divergência no diálogo das duas. Prada é veemente em dizer que moda não é arte: “O design de um vestido é criação, mas não é arte. Arte é sobre a auto-expressão não guiada por implicações comerciais”. Já Schiaparelli se auto-referencia: “criar vestidos… para mim não é profissão e sim uma arte”. Enquanto Schiaparelli fez co-criações com os ícones do movimento surrealista. Prada funciona como uma mecenas das artes por meio da Fondazione Prada, na qual desenvolve e apoia projetos ligados não só as artes visuais, mas também à arquitetura e ao cinema.

The Classical Body
Elsa Schiaparelli usando criação própria inverno 1931/Prada Inverno 2004-5 
#livro Prada Inverno 2009

The Exotic Body
Schiaparelli, Vogue, Junho 1935/ Prada Verão 2004

Relembrando a exposição.

Os vídeos, também todos em inglês e dirigidos pelo Baz Luhrman, promovem os diálogos. A atriz Judy Davis encarna Elsa Schiaparelli.

Hard Chic
Peças que fazem referência a uniformes militares e de profissões determinadas, a moda masculina e à utilização de materiais industriais, e a acabamentos severos.

Ugly Chic
Mistura de cores, texturas, estampas que explicitam a transgressão presente na verve criativa das duas.

Naif Chic
Estampas infantis, lúdicas propostas de maneira desconcertantes.



The Classical Body
O paradoxo entre o apolíneo- o clássico, clean e o dionisíaco- visceral, ornamentado.

The Exotic Body
Ambas se inspirando outras culturas: leste europeu, África, Ásia. Corpos que não estão acostumados a vestir.

The Surreal Body
Elementos como o trompe l’oeil e a mistura inusitada de materiais.

Waist Up and Down
Tendo a cintura como medida, há o embate do processo criativo de Miuccia Prada e Elsa Schiaparelli.

arte

monalisa, move!

Hoje é o último dia da exposição Move!, em cartaz no SESC Belenzinho. A mostra idealizada por David Colman e por Cecilia Dean (da Visionaire) ficou em cartaz apenas 10 dias (fast-fashion, fast-exhibition) e mistura conceitos da arte e da moda. 
São oito obras co-criadas por um estilista e por um artista: 
– Marc Jacobs + Rob Pruitt; Alexandre Herchcovitch + Mauricio Ianês; Francisco Costa + Vik Muniz; Dudu Bertholini + Rick Castro; Pedro Lourenço + Banzai Studio; Ellus + Petter Coffin; Ryan Mcnamara + Diane Von Furstenberg + Osklen  e   Olaf Breuning + Cynthia Rowley
As instalações ali propostas convidam o público a vivenciar o mundo da moda de maneira visceral.

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Foto: Rebeca Moraes© 
Crianças na obra “The Big Picture”, de Ricardo de Castro e Dudu Bertholini

As obras:

(obrigada Rebeca Moraes por emprestar o i-phone)

Essa reportagem do programa Metrópolis explica direitinho a exposição:

A obra Splash! de Olaf Breuning + Cynthia Rowley :

***
Quando visitei o Museu do Louvre lembro que me senti tão confusa como maravilhada. Não sei quantos séculos de arte naquelas paredes com milhares de obras do rodapé ao teto.  É caminhar por aqueles corredores e escutar uma voz imponente falando assim: “vejam, pobres mortais, como nós somos os detentores da arte mundial”! 
Depois de ver a expo Move! lembrei muito do texto da Susy Menkes sobre o circo da moda. De certa forma o mundo da moda, como era apresentado até meados dos 2000’s, tinha um pouco essa conotação do Louvre: fashionistas vestidos de preto trancados em uma sala vendo desfile e definindo as tendências. Aí a explosão dos blogs e das redes sociais trouxe a tona, e com sucesso, a  verdadeira relação dos pobres mortais com a moda: como parte do cotidiano, por meio dos looks do dia, das compritchas na última viagem, da roupa usada na festa da amiga e até no próprio casamento.

Não é preciso decifrar o Código da Vinci para perceber que a maioria das pessoas que vão ao Museu do Louvre têm como objetivo tirar foto ao lado da Monalisa e da Vênus de Milo, comprar o souvenir e postar em algum lugar da web. É a parte mais acessível de todo aquele universo que de tão majestoso se torna impessoal.

Ver uma expo como a Move! faz entender que a relação dos dois mundos –  da criação, da informação privilegiada com o consumo – pode ser harmonica e benéfica para ambos os lados.
Como fazer isso na prática, no mercado, e na imprensa? A resposta ainda é tão enigmática quanto o sorriso da obra prima de Da Vinci. Na trilha pela resposta a dica é sempre estar em contato com a arte, seja ela da renascencentista ou ultra contemporânea. Assim o cérebro fica exposto a novas conexões.
história

moda pra ler sete anos: nostalgia e o futuro

Em sua última entrevista como diretor de criação da Hermés Jean Paul Gaultier justificou sua saída da grife explicando que os ciclos das histórias de amor duram três e sete anos. Ele falou mais uma quantidade de anos que não lembro, mas que não vem ao caso porque o estilista francês deixou a grife depois de sete anos.
Essa fala dele me veio a cabeça porque hoje o moda pra ler completa 7 (sete!) anos. Por isso fiquei com vontade de relembrar publicamente as primeiras sensações da minha história d’amour* com o blog.
*A palavra amor foi feita para se dizer em francês, né? A pronuncia do “our” obriga a fazer biquinho e provoca até uma cosquinha no lábio superior. Experimente!
O Moda pra Ler é um dos primeiros (dizem até que é o primeiro) blogs de moda do Brasil. Uma mistura de sensações me fez criar a página, listo as duas principais: 1- vontade de trabalhar com jornalismo de moda e não conseguir entrar no mercado; 2- vontade de escrever algo distinto do que era feito na imprensa da moda.
Pressionar pela primeira vez com o botão “publicar” foi traumático. Sentia vergonha de me expor e medo de ser criticada. Depois de alguns dias recebi um comentário de um desconhecido. Fiquei emocionada! Em março do mesmo ano o Moda pra Ler foi indicado no site da Capricho e em agosto na revista. Ao mesmo tempo recebia os comentários de outros blogueiros de moda (Oficina de Estilo, Moda sem Frescura, About Fashion, Descolex) iniciantes como eu. A blogosfera da moda começava a se formar.
Ser sua própria editora era extremamente excitante. Fiquei completamente viciada em alimentar o blog. Passava horas e horas pesquisando na internet, fazendo listas e listas de possíveis pautas (e continuo). Até hoje acho que uma das melhores coisas de ter um blog é a independência de ritmo, e de pauta. O tal “gancho” jornalístico e a obsessão pelos pageviews são limitadores.
Aos seis meses de blog tentei me credenciar para o São Paulo Fashion Week e não consegui. Abusada, publiquei a recusa no blog. Na época as semanas de moda dos EUA e da Europa já credenciavam “blogueiros”. E em 2006 consegui meu primeiro freela de moda para a extinta revista “Moda” da Folha de S. Paulo. No SPFW seguinte, janeiro de 2007, o moda pra ler, e outros blogs fizeram a primeira cobertura “blogueira” do São Paulo Fashion Week. Por ironia do destino nunca mais tentei mais credenciar o blog no evento porque passei a cobrir o evento na equipe do GNT Fashion, onde trabalhei como roteirista por três anos. Em dezembro daquele ano o Moda pra Ler ficou em terceiro lugar como “melhor blog de moda” no Prêmio Chic.

A entrada efetiva no mundo da moda antecipou para dois anos o ciclo de amor estabelecido por Gaultier. O envolvimento cotidiano e obrigatório com o mundo da moda transformou o blog, o deixou mais analítico porque já não sentia a necessidade de relatar todas as novidades.

Por muitas vezes pensei em abandonar o blog. Por alguns períodos de fato o deixei de lado. Porque o mundo da moda às vezes cansa. A moda é um assunto muito sério, poderoso, importante. A moda enquanto criação, enquanto comportamento é um tema inesgotável e capaz de depurar todos os âmbitos da sociedade. Essa costumeira redução da moda ao consumo e ao status é cansativa e repetitiva.
… mas o mundo (digo, planeta Terra) não acabou no dia 21 de dezembro e os tempos são de otimismo aqui no Brasil. Ando um pouco embebida nesse espírito marqueteiro de renovação, e porque não o usarmos para o bem? Sabe aquela música “Tempos Modernos”, do Lulu Santos? De letra simples e direta: “eu vejo um novo começo de era, de gente fina elegante e sincera, com habilidade para dizer mais sim do que não”. É por aí.
Olho para trás e vejo que o moda pra ler foi, e é, o meu melhor portifólio e a minha melhor vitrine. Cada e-mail e comentário de estudante dizendo que o blog é inspirador, elogios de leitores, de colegas de profissão, e saber que o blog é citado em cursos de moda como referência de conteúdo, e até a inveja de algumas pessoas (acreditem, no mundo real/ físico tem dessas coisas 😉 são grandes estímulos.
Diferente de Jean Paul Gaultier, não vou terminar aqui meu ciclo de amor aos sete anos (até porque não estou envolvida em interesses comerciais que no fundo resumem o fim da história entre o estilista e a marca, mas não tira em absoluto o charme do seu discurso), e sim renovar os votos.
***
E então…A novidade. Resolvi por em prática uma ideia antiga: a partir de hoje o Moda pra Ler aceita colaborações afetivas.

Convido os leitores fieis, jornalistas, fotógrafos, produtores de moda, estilistas, aspirantes ou veteranos, que se identificam com a linha de pensamento do blog a mandarem seus trabalhos. Release não vale, hein? Son bienvenidos trabajos de gente de otros países.

Se interessou? ANTES de mandar qualquer coisa escreve para modapraler@gmail.com que te explico como contribuir.