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afeto

“É o momento de questionar os nossos modos de produção”…

 

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… Este é o propósito do Trama Afetiva idealizado por Jackson Araújo, o autor das aspas acima. O projeto aconteceu ao longo de duas semanas no Galpão Rosenbaum em São Paulo e consistiu em um conjunto de atividades: painel de estudos, imersão criativa, oficinas de produção e exposição final dos trabalhos. Entre as 340 inscrições, 14 portfólios foram selecionados. Ao longo do processo os participantes receberam orientação do próprio Jackson, do estilista Alexandre Herchcovitch e dos designers Marcelo Rosenbaum e Patrícia Centurion.

A Fundação Herman Hering, braço social da marca de roupas Hering, bancou a empreitada. Nas oficinas os participantes tinham a missão de criar a partir dos resíduos têxteis da empresa – técnica de design conhecida como upcycling.

Upcycling é uma evolução da reciclagem tradicional – o “downcycling”. O “up” se deve ao aumento de valor agregado adquirido pelo material após a intervenção criativa. 

As integrantes da ONG Cardume de Mães, localizada no Campo Limpo em São Paulo, ampararam os participantes nos mistérios da máquina de costura. Os trabalhos deram vida a uma exposição que pontuou o encerramento da edição de estreia do projeto. No facebook do Trama Afetiva tem os registros dos encontros e o processo de criação das peças expostas. Algumas delas poderão ser produzidos em série limitada.

Casca: A série de produtos da TRAMA AFETIVA

 

emoção
Jackson Araújo é partidário da “economia afetiva”. Ele cunhou o termo em 2014 e desde então o utiliza como norte para seus projetos e consultorias. “É construir um novo tecido social. Mais humano. Mais integrado. Permeado pelo amor ao próximo e ao mundo. Estamos vivendo a era interdependência e da horizontalidade. Não podemos mais fazer as coisas sozinhos. Temos que fazer com os outros e para os outros. Assim, todo mundo ganha, principalmente o meio ambiente”.

“Entre os inscritos havia uma dentista”, relembra. “Estamos falando de moda e design, mas a necessidade de mudança nos processos pode ser aplicado a qualquer área. As escolas precisam mudar o jeito de ensinar”. A vivencia com os participantes só confirmou uma suspeita do idealizador do projeto. Tanto os modelos tradicionais  de trabalho, quanto as metodologias de ensino nas escolas e universidades não suprem mais os anseios das pessoas.

Também vale a pena ler este texto no ModeFica sobre o Jackson e o Trama Afetiva.

educação
Andou circulando pelas redes sociais a notícia que a Finlândia seria o primeiro país a extinguir a divisão de disciplinas na grade escolar. Por lá foi inaugurada uma instituição de ensino vanguardista apelidada de “escola do futuro”.

Há uma lacuna geracional nos métodos de ensino, acentuada pela perspectiva incerta de dias vindouros em meio a atual crise econômica.  A pauta está nas reivindicações dos secundaristas que ocupam as escolas pelo Brasil. Um aluno curioso pode ter mais informação do que seu professor. Cabe então a este ser uma espécie de “curador” de informações e ajudar seu pupilo a separar o joio do trigo e a formar sua consciência crítica.

renovação
Recentemente li o livro Cradle to Cradle (significa do “berço ao berço”). É um tratado sobre ecoefetividade (não afetividade ;). Ele foi escrito em 2002 pelos arquitetos Michael Braungart e Willian McDonough. A dupla comanda uma consultoria que ajuda as empresas a reverem o modus operandi. Os dois visam zerar os impactos ambientais construindo uma linha de produção com materiais que possam ser 100% reaproveitados, pensando na lógica do upcycling. Entre os seus clientes estão a montadora Ford e a empresa de design Herman Miller. É o contraponto da lógica “cradle to grave” (do berço à cova) praticada pelas indústrias desde a Revolução Industrial no Século XVII. Este vídeo explica a diferença:

Os dois pregam a responsabilidade intergeracional, ou seja, deixar o mundo melhor para as crianças de hoje. E citando Albert Einstein, estimulam: “se queremos resolver os problemas que nos afligem, nosso pensamento deve evoluir além do nível que tinha quando criamos esses problemas”. Hoje nossos problemas parecem ser 2.0. Outras tantas camadas acumularam-se sorrateiramente ao longo dos anos que fica difícil cortar o mal pela raiz.

Então, daqui para frente a fica dica do idealizador do Trama Afetiva: “o desafio é construir um mundo que ainda não existe”. Com afeto.

livro

O amor é tendência

Desenho de Ronaldo Fraga para a coleção para a coleção "e por falar em amor"

Desenho de Ronaldo Fraga para a coleção para a coleção “e por falar em amor”

O amor está no ar. Ou a falta dele está fazendo com que ele vire pauta. É a lei da oferta e da procura. Corações e o verbo “amar” foram usados deliberadamente nos últimos tempos. Quando “amo muito” virou slogan de rede de fast-food, a crise das relações afetivas se anunciou.

Teoricamente, neste blog escrevo sobre moda. Como meu amor pela moda anda em crise, me chamou a atenção “Um Livro de Amor” ser escrito por Cristiane Mesquita e Rosane Preciosa, duas reconhecidas professoras e acadêmicas da área.

"Um livro de amor" Cristiane Mesquita e Rosane Preciosa

“Um livro de amor” Cristiane Mesquita e Rosane Preciosa. Dash Editora

A publicação é zero acadêmica. São anotações, trocas de e-mails, reflexões, confissões de duas mulheres. Textos à flor da pele. Em uma conversa por skype Cristiane e Rosane me contaram sobre o processo do livro e de quebra pedi para elas me explicarem como veem o amor no mundo moderno. No livro as autoras não identificam os respectivos textos, e então, nas aspas a seguir proponho a mesma dúvida ao leitor:

 

“Por que falar sobre amor em 2015? Há uma questão amorosa muito forte no ar. Pensar em amor é um ato de resistência atualmente. A ideia de fazer o livro surgiu em uma viagem de carro. Também tem um pouco de ficção nesta viagem. A estrada é um signo. Um caminho. A escrita é o que me move. Uma das primeiras decisões foi não assinar os textos. Tinha o desejo de escrever de outro modo. Namorava a ficção. Aí me caiu a ficha que sempre escrevi sobre os meus amores e gostaria de dar algum alcance literário à esta produção. Foi gostoso fugir do mundo acadêmico.

Foi uma maneira de reagir a esta crise nas relações. Os textos são autobiográficos e ao mesmo tempo impessoais. São um ponto de interrogação. Tem a ver também com a transformação secular do feminino. E idem para o masculino. Fala também sobre um homem que transborda.

Os textos têm grande intensidade e exposição. Propõe sensações. Acho que estamos no momento que estamos reinventando as relações. E é difícil é achar gente com coragem para mudar. E ao mesmo tempo, tem muita gente perdida. Acho que ainda vai demorar para nos reorganizarmos. Há uma fenda nas relações humanas. Vivemos uma grande confusão. Tentei escrever para buscar entender, e me livrar da febre romântica que nos formatou. O amor como reciprocidade. A ideia de solidão. De ‘ou tudo ou nada’. Há mais possibilidades entre esses dois lugares.

O amor tem uma coisa conturbada. É errar. É Viver’.

 

Trechos do Livro:

o poeta gritou no escuro do palco:
acaso existe alguém livre do amor

*

e essa sensação de desamparo quando afinal estiveram juntos e ele foi adentrando duro e fundo nos mistérios moles dela?
talvez  ela precise  aprender algo sobre distâncias, silêncios, solidões e saborear os intervalos. talvez distrair-se no talvez.

*

dia desses escrevi no meu caderninho: não suporto ficar no imaginário. eu preciso de chão. prefiro até os pequenos desastres, que fazem a gente se mexer de lugar.

*

ele sempre lhe diz que M foi seu grande amor
ela sempre responde que ele é seu grande amor de hoje

*

não sei nadar na superfície
sem chance de morrer na praia
o mar não tem tamanho
fascina-me o risco do mergulho

*

BOLO NO ESTÔMAGO

(porção para duas pessoas)
1 estômago
4 ovos
1 copo (bem cheio) de óleo
1 colher (grande) de fermento
sal a gosto

misture tudo lentamente por uma noite
não é necessário levar ao forno
sirva no café da manhã

 

***
Conversando com um amigo chegamos a conclusão que época de crise é um bom momento para encontrar um amor verdadeiro e avaliar as relações afetivas em geral (família, amigos). Sem os apelos que o dinheiro pode comprar sobram a companhia e a criatividade para não cair na mesmice. Crises são ótimas oportunidades para se reinventar porque a zona de conforto não existe.

Outro dia fui a um bar moderninho feito de contêiner na zona oeste em São Paulo e observei a dinâmica de dois grupos de solteiros. Era um feriado. Uma roda de moços solteiros de um lado, uma roda de moças solteiras do outro. Um observava o outro e teciam comentários provavelmente sobre quem pegariam ou não. A busca era evidente pela postura de ambos os lados. Conversavam com a(o) amiga(o), mas com olhares de soslaio permanentes, atentos ao movimento. Também era evidente que nas duas rodinhas os objetivos se assemelhavam: encontrar um grande amor, ou pelo menos uma noite bem acompanhado(a). Por timidez, orgulho, ou questões a serem tratadas no psicólogo, algumas horas se passaram e não houve nenhum movimento para a interação dos dois círculos. O medo da comunicação ao vivo é uma dura realidade.

Amar é contraproducente na sociedade em que vivemos. Quem ama muito não tem tempo para ser eficiente e gerar dinheiro. Werther e outros personagens da literatura, principalmente romântica, foram muito mal interpretados e fizeram um desserviço à humanidade, incrustando na cabeça da galera que amar é sofrer, amar é perdição, amar te tira do prumo. Tal conceito foi lapidado por Holywood, com a eterna promessa de um final feliz, que não considera os próximos capítulos da convivência diária. Assim, o inconsciente coletivo está em plena recuperação de anos do coma romântico.

O ideal antigo se confronta com as novas propostas de dramaturgia de séries de sucesso como Mad Men, Breaking Bad, Game of Thrones, Girls e outras que abordam personagens bem humanos. Nem bom e nem mau. Repugnante em um episódio, adorável em outro. Também, analisando alguns desenhos (me perdoem os intelectuais), notei uma mudança interessante em relação aos protagonistas. “Procurando Nemo” e “Meu Malvado Favorito” falam sobre o amor entre pai e filho(as). “Valente”, além da ruivinha não ser uma gatinha do verão, é uma história sobre a amor entre mãe e filha. Em “Frozen”, apesar da música chiclete, o que está em jogo é o amor entre as irmãs. E meu filme favorito deste ano: “Divertida mente”, fala sobre o amor por nós mesmos.

Com “De Amor e Outros Demônios“, Gabriel Garcia Marquez prova porque é um dos escritores que fala de amor de um  jeito muito real, ainda que sua literatura fosse classificada como “realismo fantástico”. Ele costumava rechaçar este rótulo dizendo que escrevia sobre o que ele via na América Latina (e ele também dizia que escrevia para ser amado). O amor “latino” do colombiano surge em meio a uma realidade adversa e da convivência. Não há espaço para idealizações.

***
“Um livro de amor” foi uma das inspirações do Ronaldo Fraga para seu desfile de inverno 2016 no São Paulo Fashion Week. A coleção foi batizada de “E por falar em amor”.

 

O amor realmente é tendência. Tomara que nunca saia de moda <3

televisão

nus e crus

Já existe um reality show que simula o surgimento da humanidade. Adão, Eva, a serpente e a maçã.
Um amigo que está morando na Itália está acompanhando o programa e me revelou tal feito televisivo. Fiquei imaginando suas cenas antes de buscá-lo no YouTube. A premissa é a seguinte: trata-se de um reality show de namoro, no qual um homem e uma mulher são enviados sozinhos (tirando a equipe de TV) e completamente nus a uma ilha deserta para comprovar a teoria que quando um macho e uma fêmea são deixados a sós acontece a cópula. O slogan do programa é “um experimento para encontrar o amor em sua forma mais pura”.

 

Adam looking for Eve

 

Contudo, a coisa é um pouco mais complexa. Sem conflito, não tem história, me ensinou certa vez um diretor argentino (e nem audiência, por supuesto). Outros representantes de cada gênero vão desembarcando na ilha, igualmente nus, para deixar aflorar as outras facetas da natureza humana, que não somente a vontade de se reproduzir. Segundo os relatos do meu amigo, houve uma cena que uma das “Evas” verbaliza seu espanto com o tamanho avantajado do membro do “Adão”. Em outro episódio duas “Evas” foram comer a maçã juntas e deixaram o Adão a ver serpentes.
O programa é holandês. Foi neste país que surgiu o Big Brother. Um sagaz produtor de televisão teve a ideia de reproduzir na frente das câmeras uma experiência na qual cientistas ficaram confinados em uma estufa, quando o resultado humano foi mais intrigante do que o científico. Um outro reality chamado “Largados e Pelados”, que atualmente está em exibição no Discovery, propõe a sobrevivência na selva, tal qual a dos nossos ancestrais das cavernas. Neste caso, o que está em jogo é a capacidade de sobrevivência mesmo e não o amor, como no concorrente holandês. Vale lembrar que nos dois programas imperam a tarja preta e o blur em cima dos “orgãos” dos participantes. Torço muito para que o pessoal da pós-produção esteja ganhando bem.
Quando comecei a frequentar albergues da juventude, comecei também a confrontar o pudor paradoxal que nós brasileiros temos com o corpo. Os Europeus, homens e mulheres, voltavam ao dormitório compartilhado enrolados na toalha e se vestiam com calma. Os companheiros de quarto igualmente europeus nem ligavam. Um outro amigo ficou chocado quando, em Barcelona, foi jogar frescobol com uma amiga que fazia topless. Ele que se gabava da coordenação motora digna do Posto 9 e de suas ideias prafrentex, perdeu de W.O. contra um par de seios “sem goleiro”, nos termos dos meninos.
Outra vez, quando Trancoso ainda não era V.I.P., encontrei meu então chefe na praia, ambos em trajes de banho. A situação foi bem estranha, porque a surpresa de enxergar uma área de pele muito maior do que estávamos acostumados no dia-a-dia do escritório, durante alguns segundos, superou a cordialidade profissional. Neste dia cheguei a conclusão que os moradores de cidades litorâneas são conceitualmente mais relaxados do que os interioranos porque desmistificam desde cedo a iminente presença de peitos, bunda, tórax, e barriga desnudos no ser humano alheio.
O Brasil é a terra do biquíni, da sugestão, do duplo sentido, mas o  topless ainda está sob a regência da serpente. Só pode no Carnaval. Apesar disso, nunca foi tão possível ver nudez na televisão (e na internet, nem se fala). Um colega de trabalho comentou nostálgico que a saga para comprar uma Playboy não fará parte das memórias da geração Z. Além do Game Of Thrones (cujo sucesso ajuda a explicar os tempo atuais), os canais a cabo reservam faixas de horários “hot” bem acessíveis a adolescentes insones.Um jovem artista americano chamado Evan Baden fez uma interpretação interessante. Depois de analisar exaustivamente o site de classificados craigslist e a plataforma de vídeo “sell your sex tape”(na qual você pode vender sua fita caseira de sexo por cerca de mil dólares), fez uma série fotográfica reproduzindo as poses e as posições mais comuns em ambas plataformas. A linguagem das fotos é ao estilo cupcake, propositalmente infantilizada e ultracolorida.

 

Technically Intimate (2008-2010) / Evan Baden©

 

As fotos do artista retratam a geração “surubinha”, segundo rotulou um amigo em uma mesa bar. Segundo ele, os adolescentes e pós-adolescentes não tem nenhuma crise com a bisexualidade e nem com a exposição do próprio corpo na internet. Contudo, se para toda tendência existe uma contra tendência. A concorrência é com a “geração bocejo”, gosta de dormir cedo, ter parceiro fixo e está mais interessada em afazeres retrôs (as duas podem dialogar neste livro de colorir ).
Voltando aos primórdios. Há a onda “paleolítica”. Nunca tanta gente teve rejeição a glúten e a lactose. Uma amiga me contou que tal fenômeno é uma reação em massa aos alimentos industrializados. E que nosso corpo, derivado do macaco da selva, não é lá muito resistente e anda sofrendo o estresse de anos de alimentação inapropriada. Não à toa, a dieta paleolítica também virou febre. Nela os alimentos são prepados tal qual faziam nossos parentes das cavernas, mas com a enorme vantagem de não precisar caçar….O mundo anda cru e explícito.

Ah! Como todo reality show, o “Adão e Eva” segue um formato com gran finale. E neste, o casal formado segundo os instintos humanos primitivos se encontram, então, pela primeira vez… Vestidos.