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“A filha dela se casou no ano passado e eles não tiveram como importar nada para o casamento. Até o vestido foi feito aqui”.

Este é um comentário sobre um casamento feito às pressas na Nigéria, cenário do livro “Meio Sol Amarelo” da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Nesta passagem, mais ou menos na metade do livro, a mãe da personagem principal, Olanna, dá uma leve alfinetada na rebenta enrabichada com um professor revolucionário e fazendo pouco caso dos rituais matrimoniais da alta sociedade do país. E a frase acima contém este subtexto do desdém aos produtos nacionais, incluindo as roupas.

Chimamanda ganhou o mundo graças aos seus TEDs e principalmente porque Beyoncé usou o trecho de “Sejamos Todos Feministas” no meio da música “Flawless”. O mesmo discurso também inspirou Maria Grazia Chiuri, a diretora de criação da Dior na coleção primavera-verão 2017. Ela estampou título da conferência em um camiseta. A peça se proliferou no instagram das influenciadoras digitais e editoriais de moda.

Foto do @chimamanda_adiche

Além de conquistar o posto de ídolo da maior artista pop do momento, Chimamanda é um d@s escritor@s mais celebrad@s da atualidade. Seu livro mais divulgado é o “Americanah”. História de uma estudante nigeriana desbravando o mundo acadêmico dos Estados Unidos. Contudo, “Meio Sol Amarelo” é livro do coração da escritora, conforme ela revelou em entrevista para o programa “Milênio” da Globonews. Foram seis anos de pesquisa e redação para concluí-lo. Colorido e dolorido, o livro conta a trajetória de uma família de classe alta, e de seus criados, ao longo da guerra civil na Nigéria nos anos 1960 e 1970. Um confronto assustador entre as etnias do norte e do sul do país.

Além de todo seu prestígio como escritora, ela se tornou um ícone fashion. Entrou para a lista de celebridades mais bem vestidas no ranking anual da revista Vanity Fair em 2016 e se tornou garota propaganda da marca de beleza britânica Boots.

Aproveitando o interesse pelo seu estilo, a escritora aproveitou para divulgar a moda de seu país.A Nigéria era um grande produtor têxtil. Viu seu mundo e seu PIB caírem com a entrada massiva de produtos chineses.  Em maio deste ano ela declarou que só usará criações de estilistas nigerianos em suas aparições públicas. Ela lançou uma campanha “Wear Nigerian” estimulando as pessoas usarem tecidos e criações “made in Nigeria”. Os looks podem ser acompanhados no instagram da escritora. Nesta reportagem da CNN (em inglês) tem a lista de estilistas que a escritora costuma usar.

A pintora mexicana Frida Kahlo marcou seu nome na história por sua ousadia que incluía um estilo muito próprio, usando criações mexicanas. As escolhas de Chimamanda não tem a pegada folclórica de Frida, mas também pontuam sua identidade nigeriana e Africana.

Neste outro texto publicado na revista Elle americana em 2014: “Por que uma mulher inteligente não pode amar moda?” ela critica o estigma. A autora costuma reiterar este posicionamento em suas entrevistas. (…) “Quando vim para os Estados Unidos, se quer ser levada a sério, se é intelectual e principalmente se você é mulher, não pode usar maquiagem porque é chamada de fútil. Suas roupas devem parecer ligeiramente desleixadas, porque pode dizer que você está muito ocupada lendo que não teve tempo de passar as suas roupas. Eu cresci lendo livros e passando os meus vestidos. Acho que há espaço para ambos”. Disse ela na mesma entrevista à Globonews.

A presença física de Chimamanda é por si só um conjunto de quebras de paradigmas, ou talvez seja um emblema para a resolução dos problemas do mundo. Verdadeiro. As roupas se materializam como atitude política.

livro, viagem

Destino: África

Da Saharienne criada por Yves Saint Laurent, tantas e tantas vezes reeditada, às animal prints e maxicolares, a moda sempre está a percorrer uma ou outra trilha em território Africano.
A mais recente delas apareceu na primavera 2014 da Valentino. O tema central, proposto por Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli foi a Ópera e à Medea de Maria Callas, mas ali também estavam as referências étnicas à África.

Valentino Primavera/ Verão 2014

Contudo, há algum tempo o continente deixou de ser apenas fonte de inspiração para o mundo e se afirma como um polo de criação. Com a autoridade de quem fala de suas próprias raízes e de sua própria cultura, uma safra de estilistas africanos têm mostrado peças sofisticadas, originais e com apelo comercial.
A familiaridade com a capulana e outros tecidos tipicamente africanos, como ankara, aso oke, kitenge e vlisco contam pontos para a originalidade. Feitos de algodão, com cores fortes e brilhantes, estampas geométricas, motivos animais ou representações de figuras políticas e religiosas os tecidos têm múltiplos usos práticos e múltiplas interpretações criativas.

Mulher usa
capulana amarrada à cabeça/ Crédito

Amostras de Kitenge à
venda no Mercado Kimironko, em Kigali Ruanda / Crédito

Amostras de Ankara à venda no Mercado
Balogum, em Lagos, Nigéria/ Crédito
Como um dos exemplos desses novos talentos, está o moçambicano Taibo Bacar, de 28 anos. Habitué das semanas de moda de Angola, África do Sul e, claro, Moçambique, onde em 2008, apenas um ano após fundar sua marca, foi nomeado Best Established Designer. O designer também já chegou a mostrar suas criações na Milan Fashion Week – Donna de 2011, e chamou a atenção de le monsieur Valentino Garavani durante a International Herald Tribune Design Conference em Roma, no ano seguinte.
Segundo a publicação Rossio Magazine, Taibo Bacar não segue um processo criativo tradicional. Ele conversa com os tecidos e escuta o que têm a dizer para, depois, dar-lhes vida. E parece que, desta vez, as capulanas do moçambicano lhe disseram que gostariam de se tornar sofisticados vestidos, saias e casacos a exaltar a silhueta feminina, com toques de renda guipir, seda e musseline de seda, ora se ajustando ao corpo, ora marcando a cintura, com certo perfume bon-ton, ora deixando as pernas ou costas estrategicamente à mostra.

Taibo Bacar Outono/Inverno 2013/ Divulgação

Elle Paris/ Per-Anders Petterson©

O potencial criativo desses estilistas africanos não escapou aos olhos sensíveis da editora-chefe da Vogue Itália, Franca Sozzani, que vem se empenhando na identificação e promoção de talentos locais. Ela também é Embaixadora das Nações Unidas no projeto Fashion 4 Development que visa o desenvolvimento econômico e social por meio da moda, atuando em alguns países do continente.
Em 2012 Sozzani esteve em Botswana, Gana, Nigeria e Uganda, visita que culminou na edição da L’Uomo Vogue de maio daquele ano intitulada Rebranding Africa. Além da moda, a revista abordou outras questões relacionadas à imagem e ao desenvolvimento do continente.

O diálogo da editora com a Àfrica parece estar só no começo. Além da Vogue Black, por meio do programa Fashion 4 Development, Franca selecionou seis marcas africanas, cujas peças estão à venda desde abril deste ano na prestigiada loja de departamentos La Rinascente (projeto Afrofuture) em Milão. São elas: Adèle Dejak (Quênia), Kofi Ansah para Art Dress (Gana), Lem Lem (Etiópia), Kiko Romeo (Quênia), Folake Folarin-Coker para Tyffany Amber  (Nigéria) e Global Mamas (Gana). Em comum os estilistas têm o talento e Fair Trade.

La Rinascente/ Divulgação

A Folake Folarin-Coker, fundadora da marca Tiffany Amber mostrou suas criações na semana de moda de Nova York em 2008 e 2009.

Tiffany Amber/ Divulgação

As criações de Kofi Ansah para Art Dress, Lem Lem, Kiko Romeo promovem o trabalho de artesãos e jovens estilistas locais. Já Global Mamas é uma ONG que promove o trabalho de jovens empreendedoras em Gana e integra a World Fair Trade Organization (WFTO) e da Fair Trade Federation (FTF).

A ação na La Rinascente mostra que a moda da África vai muito além das capulanas e os tecidos coloridos e estampados. Mostra que o mundo da moda começa a criar a desenvolver novas raízes.

Adriane Danilovic* é advogada formada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e, desde o início de 2013, vem estudando, fotografando e escrevendo sobre moda por paixão acspacheco@gmail.com

*A Adriane é a primeira a colaboradora do Moda pra Ler.
Se você tem pautas interessantes e originais e está afim de um lugar para publicar, o blog está de portas abertas.
Entre em contato: 
http://www.facebook.com/modapraler e modapraler@gmail.com

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E falando em África aproveito o post temático para indicar o livro “New African Fashion” (Helen Jennings/ Editora Prestel). Dá até tontura de tanta novidade.

#bookdodia

O livro também contempla modelos e fotógrafos africanos.

imagens/ Swell Vintage

design

o étnico e a holandesa

Difícil achar uma conexão entre o mundo da moda e países como Benin, Nigéria e Costa do Marfim? Dries Van Noten e a Acne (a marca sueca amada pelas it girls) não acham.
Os dois nomes grifados estão entre tantos que contribuem com trabalhos para a exposição “Six Yards Guaranteed Dutch Design”. Em cartaz no Museum voor Moderne Kunst Arnhem, em Utrecht na Holanda, até o dia 07 de maio, a mostra quer provar que a presença da tecelagem e estamparia holandesa Vlisco ajudou a construir a identidade visual do oeste africano.
A empresa fundada em 1846 começou copiando os tradicionais batiks da Indonésia, e quando passou a comercializar com a África, trinta anos depois, encontrou clientes com apetite por cores e estampas. Da estamparia manual ao processo digital, hoje a tecelagem conta com lojas nas capitais de Togo, Nigéria, Benin, Costa do Marfim, República Democrática do Congo e em Helmond, cidade natal da empresa. 
as estampas da Vlisco
Se a companhia foi responsável ou não por tal influência na cultura do sudoeste africano, não dá pra afirmar com toda certeza. O quase nada que se sabe sobre esses países aponta que as diferentes etnias (leia-se tribos) presentes por lá carregam uma tradição mais longeva de indumentárias coloridas. O trunfo da Vlisco tenha sido, talvez, transformar o repertório cultural em pano para fazer roupa. Aí sim: aliaram o design à percepção certeira do mercado local.
Contudo, se o pressuposto da exposição estiver mesmo certa, é até divertido pensar que parte do imaginário sobre o “étnico africano”, que vira e mexe permeia a lista de tendências (inverno 2012, lá está ela) tem uma astuta empresa holandesa por trás.

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para comprovar a semelhança, pedi algumas fotos à minha amiga Ligia, que esteve na Libéria, país do oeste africano.

Ligia Perissinoto®

Ligia Perissinoto®

Ligia Perissinoto®