crônica, fotografia, história, livro

natureza

O blog completa 11 anos neste mês (dia 17 de janeiro). Ele é capricorniano, mas como o ascendente é o Sagitário da autora, ele sempre foi inquieto, avesso a rótulos e a regras. Para comemorar o aniversário fiz este texto fragmentando.

***

prólogo
O encontro com uma árvore chamada Samaúma aconteceu no final de 2014 quando conheci Alter do Chão (PA). Me impactou muito. Foi a minha primeira (e ainda única) vez na Amazônia. A exuberância do verde e dos rios, pelo conjunto da obra, tomou de assalto o topo da lista de lugares mais lindos que visitei. O contato com o floresta teve digestão prolongada e me contaminou com a bactéria da curiosidade em entender o papel de um mero ser humano urbanóide e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade em meio a exuberância da natureza.  Liguei a antena para os temas relatados a seguir.

Raízes da Samaúma/ Araquém Alcântara©

árvore
Para abraçar o tronco de uma Samaúma é preciso fazer uma ciranda com umas 30 pessoas. A espécie ocorre nas florestas tropicais e é considerada sagrada pelos povos nativos. Os Maias foram um deles. Eles acreditavam que suas longas (chegam a ter 300 m de extensão) e profundas raízes permitiam a comunicação com o mundo dos mortos. Já sua copa imponente (de altura equivalente a um prédio de 20 andares) era a “escada para o céu”. Nos dias de hoje ela é apelidada de “telefone de índio” – o eco produzido por golpes de madeira em suas raízes ecoam num raio de 1 km e facilitam a localização. Também funciona como um GPS da mata- servindo de ponto de referência para os barqueiros nos rios amazônicos – as estradas da região.

O título de “Rainha da Floresta” não é por acaso. Caprichosa, até atingir sua plenitude ela enfrenta muitos desafios. Seu florescimento é irregular. Pode demorar até sete anos* e ela depende da colaboração de outras espécies para se reproduzir. Floresce somente durante a noite e sua flor tem a cor branca para atrair os morcegos. Enquanto eles se lambuzam com o néctar da flor, vão sujando as asas com o pólen e o transportam até uma outra Samaúma. Assim as duas árvores polinizam e geram os frutos, um algodãozinho, com as sementes. Já crescida, a árvore se torna o lar para ninhos de passarinhos, formigueiros, fungos, chancelando assim outros apelidos milenares: “mãe da floresta” ou “mãe da humanidade”. Responsa.

O desmatamento na Amazônia aumenta a distância entre as Samaúmas. Os morcegos ficam com preguiça de voar tanto. A polinização da árvore fica comprometida e o ecossistema por ela provido também.

ciência
Há uns dois meses atrás meu pai me emprestou o livro “A Vingança de Gaia”. O autor é o cientista inglês James Lovelock, responsável pela “Teoria ou Hipótese da Gaia”. Neste livro ele discorre sobre a soberania da Natureza em relação a ação humana e sobre as consequências inevitáveis de mudança climática.

Gaia, na mitologia grega é a mãe da Terra (para quem não tem muita paciência para encarar um texto científico, indico este texto aqui – em tempo, estou a anos luz de entender de ciência com profundidade, o que importa aqui é a essência da ideia). Lovelock enxerga o Planeta Terra como um organismo único, um sistema auto-regulador – como o nosso corpo.

A priori sua teoria não foi levada a sério. Nos anos 1960, ele a apresentou à NASA. A comunidade científica considerava seus argumentos pouco contundentes. Aí entrou na jogada a bióloga Lynn Margulis (dica da Rita Wu). Ela o ajudou a respaldar sua teoria com comprovações científicas.

Margulis (1938-2011) é autora da teoria da simbiogênese (pode ser lida no livro “O Planeta Simbiótico”). Também muuuuito a grosso modo, é um projeto evolucionista que, de certa forma, se contrapõe a teoria evolutiva mais conhecida, a de Charles Darwin. Pesquisando células pré-históricas, ela descobriu que a mitocôndria (o “pulmãozinho” de cada uma de nossas células) é resultado da ação de bactérias. Ou seja, desde os primórdios  da formação da vida, momento os organismos precisam cooperar entre si para existir. Moral da história: ela aposta na colaboração entre as espécies e não na competição entre elas, como prega Darwinismo (uma visão mais feminina da evolução, né?)

Tanto a Simbiogênese quanto a Hipótese de Gaia não são unanimidade na comunidade científica, mas tendo em vista a assombração do aquecimento global, se apresentam como um partido de oposição.

índios
Esteve em cartaz em São Paulo uma exposição no SESC Pinheiros chamada “Adornos do Brasil Indígena: resistências contemporâneas”, a mostra revelava peças e fotos dos belíssimos “acessórios” usados por diversas tribos brasileiras. Cada adorno tem uma simbologia. A pintura corporal, por exemplo, funciona como uma espécie de RG para membro da tribo. Os acessórios com plumas podem representar uma escala hierárquica.

As analogias com os hábitos ocidentais brasileiros são enormes e sugerem a origem da notória preocupação com a vaidade enraizada na cultura nacional (além, claro, do costume de gostar de tomar banho diariamente ;). A exposição no SESC aponta um zeitgeist. A cultura indígena  vem despertando interesse de muitos artistas contemporâneos e foi citada no relatório de tendências do WGSN na apresentação do bureau durante o SPFW em novembro. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, ganha holofote nos meios mais intelectualizados. Em seu livro mais conhecido “A Inconstância da Alma Selvagem” (Cosac Naify, 2002) ele descreve a dinâmica e as simbologias das tribos que pesquisa. Em algumas línguas indígenas não há distinção de gênero, ou seja, a denominação para homem e mulher é a única. A contagem de tempo é outro advento do “homem branco”, na tribo importa a incidência da luz do Sol e as lunações. Os índios estão absolutamente integrados com os processos da natureza, e por isso respeitam profundamente os tempos do próprio corpo, tipo necessidade de sono ou descanso.

O avanço do agronegócio no país ameaça profundamente a demarcação das terras indígenas. O desmatamento e o contato com a civilização traz problemas inéditos aos índios. As doenças e a escassez de alimentos os insere a força na economia “civilizada” e os leva automaticamente à pobreza.

***

epílogo
O contato com a natureza in loco dá aquela pontada nos genes. O inconsciente sussurra: “aí tem um pouco de você”.

design, entrevista

afeto

“É o momento de questionar os nossos modos de produção”…

 

_mg_2417

 

… Este é o propósito do Trama Afetiva idealizado por Jackson Araújo, o autor das aspas acima. O projeto aconteceu ao longo de duas semanas no Galpão Rosenbaum em São Paulo e consistiu em um conjunto de atividades: painel de estudos, imersão criativa, oficinas de produção e exposição final dos trabalhos. Entre as 340 inscrições, 14 portfólios foram selecionados. Ao longo do processo os participantes receberam orientação do próprio Jackson, do estilista Alexandre Herchcovitch e dos designers Marcelo Rosenbaum e Patrícia Centurion.

A Fundação Herman Hering, braço social da marca de roupas Hering, bancou a empreitada. Nas oficinas os participantes tinham a missão de criar a partir dos resíduos têxteis da empresa – técnica de design conhecida como upcycling.

Upcycling é uma evolução da reciclagem tradicional – o “downcycling”. O “up” se deve ao aumento de valor agregado adquirido pelo material após a intervenção criativa. 

As integrantes da ONG Cardume de Mães, localizada no Campo Limpo em São Paulo, ampararam os participantes nos mistérios da máquina de costura. Os trabalhos deram vida a uma exposição que pontuou o encerramento da edição de estreia do projeto. No facebook do Trama Afetiva tem os registros dos encontros e o processo de criação das peças expostas. Algumas delas poderão ser produzidos em série limitada.

Casca: A série de produtos da TRAMA AFETIVA

 

emoção
Jackson Araújo é partidário da “economia afetiva”. Ele cunhou o termo em 2014 e desde então o utiliza como norte para seus projetos e consultorias. “É construir um novo tecido social. Mais humano. Mais integrado. Permeado pelo amor ao próximo e ao mundo. Estamos vivendo a era interdependência e da horizontalidade. Não podemos mais fazer as coisas sozinhos. Temos que fazer com os outros e para os outros. Assim, todo mundo ganha, principalmente o meio ambiente”.

“Entre os inscritos havia uma dentista”, relembra. “Estamos falando de moda e design, mas a necessidade de mudança nos processos pode ser aplicado a qualquer área. As escolas precisam mudar o jeito de ensinar”. A vivencia com os participantes só confirmou uma suspeita do idealizador do projeto. Tanto os modelos tradicionais  de trabalho, quanto as metodologias de ensino nas escolas e universidades não suprem mais os anseios das pessoas.

Também vale a pena ler este texto no ModeFica sobre o Jackson e o Trama Afetiva.

educação
Andou circulando pelas redes sociais a notícia que a Finlândia seria o primeiro país a extinguir a divisão de disciplinas na grade escolar. Por lá foi inaugurada uma instituição de ensino vanguardista apelidada de “escola do futuro”.

Há uma lacuna geracional nos métodos de ensino, acentuada pela perspectiva incerta de dias vindouros em meio a atual crise econômica.  A pauta está nas reivindicações dos secundaristas que ocupam as escolas pelo Brasil. Um aluno curioso pode ter mais informação do que seu professor. Cabe então a este ser uma espécie de “curador” de informações e ajudar seu pupilo a separar o joio do trigo e a formar sua consciência crítica.

renovação
Recentemente li o livro Cradle to Cradle (significa do “berço ao berço”). É um tratado sobre ecoefetividade (não afetividade ;). Ele foi escrito em 2002 pelos arquitetos Michael Braungart e Willian McDonough. A dupla comanda uma consultoria que ajuda as empresas a reverem o modus operandi. Os dois visam zerar os impactos ambientais construindo uma linha de produção com materiais que possam ser 100% reaproveitados, pensando na lógica do upcycling. Entre os seus clientes estão a montadora Ford e a empresa de design Herman Miller. É o contraponto da lógica “cradle to grave” (do berço à cova) praticada pelas indústrias desde a Revolução Industrial no Século XVII. Este vídeo explica a diferença:

Os dois pregam a responsabilidade intergeracional, ou seja, deixar o mundo melhor para as crianças de hoje. E citando Albert Einstein, estimulam: “se queremos resolver os problemas que nos afligem, nosso pensamento deve evoluir além do nível que tinha quando criamos esses problemas”. Hoje nossos problemas parecem ser 2.0. Outras tantas camadas acumularam-se sorrateiramente ao longo dos anos que fica difícil cortar o mal pela raiz.

Então, daqui para frente a fica dica do idealizador do Trama Afetiva: “o desafio é construir um mundo que ainda não existe”. Com afeto.

crônica, design, história

o mesmo

enhanced-25538-1444841784-1

 

A Mônica e seu vestidinho vermelho anteciparam tendências. No gibi, os personagens do cartunista Maurício de Souza usam sempre a mesma roupa. Steve Jobs era e Mark Zuckerberg é adepto do chamado “guarda-roupa cápsula”.  O primeiro combinava malha preta de gola rolê e calça jeans. Já o fundador do facebook sempre usa camiseta cinza. Como nada é por acaso no mundo dos bilionários, o minimalismo tem justificativas bem pragmáticas. Uma publicitária norte-americana chamada Matilda Kahl detectou que perdia um tempo precioso do seu dia escolhendo a roupa para o trabalho e por isso elegeu um uniforme. Papo de publicitário, a gente sempre desconfia ;), mas a garota personificou um zeitgeist e por isso bombou nas redes sociais. Ah sim! Aos finais de semana ela se permite variações.

Uma amiga psiquiatra atende pacientes de todas as classes sociais me disse certa vez: “independente do dinheiro, o ser humano quer sempre amar e se sentir amado”. Neste podcast sobre tristeza, outra psiquiatra afirma: “se tem uma coisa que apavora o mundo capitalista é (ouvir): ‘nada que você tem para me oferecer me serve”. O modelo de substituição de consumo falhou porque ao longo de seu meio milênio de existência, mesmo criando todas as possibilidades produtos e serviços compráveis, não conseguiu sanar o vazio existencial e a tristeza que habita todo o ser humano. E para a roda continuar girando a indústria farmacêutica lucra com as pílulas da felicidade.

Olhando o copo meio cheio, este “vazio” é, ou deveria ser, a força motora para evoluir, criar e fazer diferente. Assim, as chances de amar e ser amado aumentam. Sabe quando os cantores terminam o relacionamento e depois lançam um disco incrível?

O consumo de moda tem protagonismo neste “vazio”. A roupa é a nossa primeira comunicação com o mundo. A peça tal, da marca tal, tem o poder de criar atalhos para a aceitação em determinados grupos e dar a sensação do tão almejado “ser amado”.

A moda em sua vertente comercial inaugurou o sistema de substituição de desejos a cada estação climática. Estamos em época de temporada de desfiles internacionais e parei para pensar sobre a quantidade de roupas apresentadas e na função delas para o nosso dia-a-dia. A estilista Manu Rodrigues da Cabana Crafts (tem matéria minha sobre ela na revista da gol págs.62 e 63 #selfie) trabalhou na Hermés e na Huis Clos. Fazia roupas maravilhosas, contudo, quando reparou no próprio figurino se deu conta que se restringia ao jeans, a camisa e ao sapato baixo. A ideia de viver com menos também tem a ver com aceitar a dura verdade de que talvez você não vá a tantas festas assim para ter tantos vestidos deslumbrantes e sapatos de salto luxuosos. “Aceita que dói menos”, diz o dito popular.

A Uniqlo* fez de seu dono o homem mais rico do Japão indo na contramão do fast fashion no que toca ao frenesi das microtendências. Lá você encontra roupas atemporais o ano todo. A rede nipônica se diferenciou na dinâmica do varejo da moda com uma proposta que se aproxima da lógica do desenho industrial. São peças clássicas, lisas e básicas, com as quais as possibilidades de combinações se multiplicam. (*Contudo, o volume de peças comercializado e a quantidade de lojas da empresa espalhadas pelo mundo estão em pé de igualdade com a H&M, Zara, e outras do gênero, por isso fica aquela pulguinha atrás da orelha quanto a procedência da peças). O sucesso da empresa comprova que apenas uma pequena parcela da população se anima em fazer do look do dia um acontecimento.

Pensando na lógica do desenho industrial, a moda tem seus clássicos: o óculos Ray-Ban aviador, o All-Star de cano alto, o tailleur de tweed da Chanel e o trench coat da Burberry.  A marca inglesa conhecida por sua padronagem xadrez foi uma das primeiras a propor a inversão da lógica dos desfiles e se adaptar ao ritmo da internet. As roupas desfiladas na semana de moda não vão mais esperar a virada da temporada para chegar nas lojas. É o see now, buy now – ou o veja agora e compre agora. As grifes de luxo já tinham tentado se adaptar ao aperto de passo das fast fashion e acrescentaram ao calendário de lançamento anual mais duas coleções a Cruise e Pre Fall. Pelo visto, elas não foram suficientes. Com tanta oferta e tanto estímulo, os impulsos de consumo tem que ser resolvidos no aqui e agora. Se deixar para amanhã outra marca garfa o consumidor.

Na contramão do sistema estão as marcas pequenas, adeptas do slow fashion. Elas são capitaneadas por designers que preferem deixar o processo criativo maturar e o produtivo levar o tempo que for necessário. Dar tempo ao tempo é um luxo. Implica em um custo mais elevado no produto final e em pouca variedade. Os eleitores destas marcas ainda não são somam porcentagem suficiente para pontuar nas pesquisas de opinião, mas a tendência já angaria alguns votos. Quem sabe na próxima eleição a representatividade aumenta?

Encontrar seu estilo é muito importante para consumir menos e melhor. Para saber o que mostrar por fora, é preciso compreender o que mora por dentro. Quando isso acontece a necessidade de vestir tantas fantasias sociais e a vontade de consumir diminuem.

***
Aproveito este post para divulgar o Desengaveta (aqui), nova atração do canal GNT/ Globosat. De um jeito leve e divertido o programa propõe repensar a maneira que consumimos moda. Ele é feito por uma equipe maravilhosa na Boutique Filmes, a qual eu integro com alegria como diretora de conteúdo/ roteirista.