crônica

crônica, design

pendurar

Ainda estão para desenhar a bolsa ideal para a vida urbana-pedestre-saí-de-dia-volta-de-noite-no-transporte-público-lotado. Encontrar um local para pendurá-la é o segundo desafio.

São pouquíssimos os bares, restaurantes e banheiros de estabelecimentos comerciais que oferecem ganchinhos para prender a bolsa. No máximo tem aquele velcro no espaldar da cadeira, que não funciona exatamente para pendurar, senão para evitar furtos.

Em países onde o inverno é rigoroso (vale a Argentina e o Chile aqui do lado, pra não ser colonizada) a oferta de ganchinhos é maior. Não tanto pelas bolsas e sim pelos casacos.

Uma grande invenção paliativa é aquele ganchinho que você coloca sobre a mesa para pendurar a bolsa, encontrada nas lojas de cacarecos.

Por outro lado, na empresa em que trabalhava, junto com uma colega reivindicamos ganchinhos na parede para pendurar as bolsas. Para nossa surpresa algumas semanas depois lá estavam eles fixados entre as mesas. E para nossa surpresa seguinte eles foram subutilizados. Todo mundo continuou pousando bolsas e mochilas em cima das mesas ou no espaldar das cadeiras. O cabideiro não é um elemento da cultura nacional.

A bolsa é um órgão externo ao corpo, ou, e para quem não a encara assim, o jeito é fazer malabarismo.

crônica, viagem

varal

Havia um tapete secando no meio da calçada. A lavanderia da rua improvisou um varal com duas araras para quarar toda a extensão da peça. Se secar roupas em apartamento pode ser uma tarefa árdua, imagine um tapete?
No domingo um casal estendia as roupas da família na laje ao ar livre. Era uma manhã de sol após uma semana intensa de chuva. A roupa ia secar rapidinho. O vão entre o viaduto pela qual caminhava e a casa não permitiram a comunicação verbal. A dona do varal retribuiu meu sorriso. Ainda se usa o sorrir para fazer contato com outro ser humano.
Pelas vielas do bairro da Alfama em Lisboa é comum esbarrar com varais (aliás, em algumas cidades da Itália também). Alguns suspensos, outros no nível da rua mesmo. Sutiãs, cuecas, saias, panos de pratos, toalhas paralelos aos turistas. Sem maiores constrangimentos. Mesmo longe da Alfama, em edifícios residenciais mais novos e mais altos, lá está o varal debruçado nas janelas provocando vertigem aos desacostumados com a tradição portuguesa. Imagina o trabalho que dá se uma delas escapar e se espatifa no chão? Os vizinhos não roubam? Perguntas que povoam imaginários forasteiros.

Em condomínios residenciais em São Paulo (e em outras cidades provavelmente) deixar o varal à vista na sacada ou uma banda do lençol para o lado de fora da janela é infração grave, digna de multa.
Avançando um pouco mais nos meridianos, uma mulher japonesa processou o google por divulgar a imagem de seu varal no street view. Seu argumento de acusação incluiu transtornos psiquiátricos desenvolvidos após a publicação de fotos de suas peças íntimas em escala global.
A área de serviço alheia funciona como um pequeno censo. É possível identificar o número de habitantes de uma casa, gênero, faixa etária, classe social e os hábitos de consumo. É também desvendar traços da personalidade. Como as preferências das roupa íntimas, o zelo ou descuido com as peças. É como ler um diário da dos habitantes da casa.
Questão ambígua. Por um lado esconder o varal é um direito à privacidade. Por outro, o receio extremado de assumir o básico de uma sociedade dita moderna: todo mundo lava roupa, usa calcinha, tem lençóis velhos e pouco espaço para lavar tapetes. Humano. Demasiado humano.

crônica, livro

presença

“A filha dela se casou no ano passado e eles não tiveram como importar nada para o casamento. Até o vestido foi feito aqui”.

Este é um comentário sobre um casamento feito às pressas na Nigéria, cenário do livro “Meio Sol Amarelo” da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Nesta passagem, mais ou menos na metade do livro, a mãe da personagem principal, Olanna, dá uma leve alfinetada na rebenta enrabichada com um professor revolucionário e fazendo pouco caso dos rituais matrimoniais da alta sociedade do país. E a frase acima contém este subtexto do desdém aos produtos nacionais, incluindo as roupas.

Chimamanda ganhou o mundo graças aos seus TEDs e principalmente porque Beyoncé usou o trecho de “Sejamos Todos Feministas” no meio da música “Flawless”. O mesmo discurso também inspirou Maria Grazia Chiuri, a diretora de criação da Dior na coleção primavera-verão 2017. Ela estampou título da conferência em um camiseta. A peça se proliferou no instagram das influenciadoras digitais e editoriais de moda.

Foto do @chimamanda_adiche

Além de conquistar o posto de ídolo da maior artista pop do momento, Chimamanda é um d@s escritor@s mais celebrad@s da atualidade. Seu livro mais divulgado é o “Americanah”. História de uma estudante nigeriana desbravando o mundo acadêmico dos Estados Unidos. Contudo, “Meio Sol Amarelo” é livro do coração da escritora, conforme ela revelou em entrevista para o programa “Milênio” da Globonews. Foram seis anos de pesquisa e redação para concluí-lo. Colorido e dolorido, o livro conta a trajetória de uma família de classe alta, e de seus criados, ao longo da guerra civil na Nigéria nos anos 1960 e 1970. Um confronto assustador entre as etnias do norte e do sul do país.

Além de todo seu prestígio como escritora, ela se tornou um ícone fashion. Entrou para a lista de celebridades mais bem vestidas no ranking anual da revista Vanity Fair em 2016 e se tornou garota propaganda da marca de beleza britânica Boots.

Aproveitando o interesse pelo seu estilo, a escritora aproveitou para divulgar a moda de seu país.A Nigéria era um grande produtor têxtil. Viu seu mundo e seu PIB caírem com a entrada massiva de produtos chineses.  Em maio deste ano ela declarou que só usará criações de estilistas nigerianos em suas aparições públicas. Ela lançou uma campanha “Wear Nigerian” estimulando as pessoas usarem tecidos e criações “made in Nigeria”. Os looks podem ser acompanhados no instagram da escritora. Nesta reportagem da CNN (em inglês) tem a lista de estilistas que a escritora costuma usar.

A pintora mexicana Frida Kahlo marcou seu nome na história por sua ousadia que incluía um estilo muito próprio, usando criações mexicanas. As escolhas de Chimamanda não tem a pegada folclórica de Frida, mas também pontuam sua identidade nigeriana e Africana.

Neste outro texto publicado na revista Elle americana em 2014: “Por que uma mulher inteligente não pode amar moda?” ela critica o estigma. A autora costuma reiterar este posicionamento em suas entrevistas. (…) “Quando vim para os Estados Unidos, se quer ser levada a sério, se é intelectual e principalmente se você é mulher, não pode usar maquiagem porque é chamada de fútil. Suas roupas devem parecer ligeiramente desleixadas, porque pode dizer que você está muito ocupada lendo que não teve tempo de passar as suas roupas. Eu cresci lendo livros e passando os meus vestidos. Acho que há espaço para ambos”. Disse ela na mesma entrevista à Globonews.

A presença física de Chimamanda é por si só um conjunto de quebras de paradigmas, ou talvez seja um emblema para a resolução dos problemas do mundo. Verdadeiro. As roupas se materializam como atitude política.