arquitetura, crônica

“A Pele que habito”

um bom projeto arquitetônico é sutil aos olhos e intenso ao coração
colaboração para a revista Plastic Dreams da Melissa SS18

UM PROJETO DE ARQUITETURA de um espaço (ou a falta dele) influencia profundamente as nossas sensações. A incidência de luz natural e o número de divisórias de uma casa, por exemplo, são elementos definitivos para o tipo de relação que construímos com as pessoas com quem convivemos.
A “Casinha” (1942), primeira casa que meu avô, o arquiteto Vilanova Artigas, projetou como morada, e onde brinquei na infância, tem apenas as portas de entrada e um único banheiro. Para os estudiosos, é um de- leite formal. Para mim, sempre foi o lar que ele fez para a namorada (a vovó). A vivência neste espaço livre foi determinante para solidificar a relação de confiança e cumplicidade como um casal longevo. Ao caminhar pelos ambientes fascinantes do MASP, em São Paulo, dificilmente pensamos sobre o gênero do seu idealizador. Lina Bo Bardi, a autora do projeto, se autointitulava “arquiteto”. Ela escreveu seu nome na história da cidade – feito até hoje raro para as mulheres desse meio. Em 38 anos do Prêmio Pritzker (espécie de Oscar da arquitetura), apenas duas mulheres foram laureadas: a iraniana Zaha Hadid (1950-2016) e a japonesa Kazuyo Sejima, cujo título foi dividido com seu sócio no es- critório SANAA. Por aqui, mais da metade dos registros profissionais feitos no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) são de mulhe- res. Paradoxalmente, poucos nomes femininos reverberam com força no mercado e na mídia.
A carioca Carla Juaçaba quebra a regra e vem ganhando notoriedade neste grupo ainda restrito. Ela levou o Prêmio Arcvision, dedicado às mulheres, em sua primeira edição (2013). Sua obra transita entre a arquitetura e a expografia. Nas casas que desenha, sua preocupação é respeitar o entorno e a história do lugar. “A arquitetura pode ser encanta- dora de maneira imperceptível. Sentir-se feliz em um espaço não passa por teorizar sobre suas formas”, diz.
Ela criou a megaestrutura de andaimes da exposição “Humanidade”, du- rante a conferência sobre meio ambiente Rio+20, em 2012. “A proposta foi reverenciar a geografia de Copacabana”, relembra. A opção pelo material efêmero se relacionava com o contexto do período e com a responsa- bilidade ambiental demandada pelo evento. “O Rio de Janeiro vivia em obras em função dos eventos que viriam (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos), e o material pôde ser reaproveitado em outras construções”, complementa. Como Lina Bo Bardi, Carla também prefere dispensar atribuições femininas ao seu trabalho. Contudo, ela observa:“Lendo os poemas da polonesa Wisława Szymborska (vencedora do Nobel de Literatura em 1996) penso que dificilmente um homem escre- veria daquele jeito”. Certamente meu avô diria que a boa arquitetura não precisa ser definida por gênero e, sim, por amor.

arquitetura, design

plantas

“Costela de Adão tá acabando rapidinho”, disse o vendedor. Após uma pausa, ele promoveu: “mas esse cacto maiorizinho também está saindo bastante”.

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Trabalho de uma das integrantes do Clube do Bordado/ Imagem do Instagram

O diálogo aconteceu na virada de uma segunda para terça de dezembro na feira de flores e plantas do CEAGEASP. A visão e o olfato até se confundem com tanta cor e frescor. O sorriso sai fácil ao pisar pela primeira vez nos enormes galpões. O programa é para ticar “OK” na lista de passeios obrigatórios ao longo da vida de um paulistano.

A feira dá a dimensão da grandeza de São Paulo de maneira curiosa. Íntima. Imagina quantos vasos de orquídea existem na cidade? Sensação parecida, e bem menos perfumada, tive quando fui pela primeira vez à Zona Cerealista. A quantidade de entrepostos dedicados exclusivamente a vender alho dá a noção de quantas panelas refogam arroz todos os dias.

Em falta no CEASA, tem Costela de Adão ao montes na moda.

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Blusa Tigresse, usada pela Ana Maria Braga, foi uma dos itens mais procurados no atendimento ao telespectador da Globo. Melissa dos Irmãos Campana, inspirada na forma da folha. Conjunto com jeitinho retrô da grife carioca Wasabi. Brinco da grife de moda praia Água de Coco.

 

Já o cacto está atendendo a demanda nos dois lugares sem problemas .

 

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camisa preta Pyr∆mid; camisa rosa Svetlana e short Farm.

O WGSN cantou a bola para as estampas de plantas lá no verão de 2014, com sua Macro Trend: Next Nature. O assunto reverberou por aqui com força nesta temporada. Além do cacto e da Costela de Adão, vários outros desenhos de plantas verdejam o mundo da moda.

Na vida real, o cacto é bem popular e variado. Tem várias espécies, formas, cores e tamanhos. São boas opções para quem não tem muito tempo para cuidar, ou para quem anda sofrendo com baixa do Reservatório da Canteira. Aliás, a água de cacto promete desbancar o suco verde e a água termal nos quesitos saúde e hidratação.

Já a Costela de Adão foi muito usada em projetos de paisagismo dos anos 1950 e 1960. Voltou com tudo. O formato da folha lembra uma costela mesmo, por isso o apelido. O nome científico é Monstera Deliciosa. E ela dá um fruto que parece um quebra-cabeça. Nunca provei, mas era a iguaria tropical preferida da Princesa Isabel (a da Lei Aurea), segundo informa a Wikipedia. Pelo visto faz jus ao sobrenome latim.

O paisagista Burle Marx usava muito Costela de Adão em seu projetos. Apaixonado pelo seu ofício dizia: “Pode-se pensar em uma planta como uma pincelada, ou como um ponto de bordado”. As hortas caseiras e urbanas, jardins suspensos para os espaços pequenos, terrários, a busca por produtos orgânicos, se popularizam junto com as estampas. O clima do mundo anda mais para uma paleta de cinzas, de beges desérticos.  O espírito de tempo pede para reflorestar.

Ah! E se quiser uma costela de Adão, chega bem cedo à feira do CEASA.

arquitetura, design, história

sobradinho

Na frente do prédio onde moro tem um brechó. Por lá comprei uma blusa e um vestido. Total: vinte reais. A arquitetura da casa é bem típica da região de Pinheiros, Zona Oeste de SP. Ou um dia foi. É um sobradinho implantado em um terreno retangular. A frente é recuada para abrigar um veículo. Há uma escada para levar ao piso superior do quartos e outra para o  inferior, do quintal.

A casa onde nasci, na mesma rua, tinha a disposição semelhante. Ela e toda sua vizinhança foram derrubadas há alguns anos. Uma árvore plantada pelo meu pai na calçada é o único resquício do antigo número 361. Ela vive à sombra de muro alto construído para escoltar dois prédios de alto padrão. Todos os apartamentos da dupla têm varandas amplas circundadas por vidros verdes. Quase todas foram fechadas e incorporadas a sala.

Dois terrenos vazios deixaram a casinha do brechó ilhada. Suas colegas de estilo foram a baixo do dia para a noite há uns dois anos. E o brechó na verdade é uma venda de caridade. Ele está instalado na sala de uma sede regional do Narcóticos Anônimos. O imóvel também serve de estada provisória para alguns dependentes em recuperação. Os artigos alí vendidos chegam de doações dos vizinhos e ajudam nas despesas do lugar.

“Mais um empreendimento com as grifes…”, diz a placa ao lado esquerdo da casinha. Um um tapume de metal vermelho esconde o espaço já tomado pelo mato. A crise econômica deve ter atrasado o levante dos edifícios. Ainda não está claro se subirão dois prédios, um de cada lado, ou se surgirá uma engenhoca para aproveitar os dois terrenos em uma mesma construção. Tenho um pouco de medo de imaginar esta segunda opção.

Desenho da série "São Paulo Infinita"©, da ilustradora Juliana Russo

Desenho da série “São Paulo Infinita”©, da ilustradora Juliana Russo

Em 2012 o escritor Inácio de Loyola Brandão publicou: “As Paredes caem, uma a uma, nas Ruas de Pinheiros” . Uma reflexão sobre a transformação da mesma rua em questão, onde ele mora há mais de duas décadas. Spoiler. Seu texto termina com a citação:

E os seres humanos que davam vida a todas essas coisas? Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo? Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Eles não percebem – os sujeitos da transformação econômica – que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o ‘quartier’ e o mundo?

Nem toda casinha fofa tem valor histórico e precisa ficar de pé. A dinâmica da cidade muda. No entanto, a erupção de construções de mais de vinte andares deixou algumas regiões de São Paulo com aspecto de conjunto habitacional neoclássico de luxo, ou de vidro verde clean.

Em Pinheiros a padronização se manifesta no comércio. Há uma coleção de palavras em inglês distribuídas nas placas do bairro. “Pancake” (panqueca) anunciava o cardápio do food truck da rua Lisboa. Os estrangeirismos (há alguns nomes em francês também) sofrem concorrência forte dos títulos com a terminação “ria”. “Esmalteria”, “Cabelaria”, “Lasanheria”, etc. O limiar entre o cosmopolita e o clichê anda tênue.

Aquilo que comemos, as roupas que vestimos, os lugares onde vivemos são cada vez mais padronizados, porque a padronização é o preço que pagamos pelos preços que podemos pagar. Para a maior parte de nós, a vida decorre, monótona, como o tiquetaquear de um despertador. Habituamo-nos ao ritmo que nos é imposto pela nossa necessidade de subsistir. Ao fim de pouco tempo, começamos a gostar das nossas amarras. Escreveu Anthony Burgess, autor do livro “Laranja Mecânica”, no ensaio “A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal”, de 1973. A padronização, no entanto, parece também atrair quem tem cacife para optar pela exclusividade e pela liberdade.

“O Futuro é Vintage” anunciou uma piada do vídeo “Mudança” do Porta do Fundos. A brincadeira faz algum sentido.

No livro “Cronologia da Moda” o retrô do futuro está anunciado no capítulo dos anos 2000. Ele reverencia as décadas do século XX amplamente divulgadas pela Prada, pela Louis Vuitton na era Marc Jacobs, pela Gucci e pelo Alexander McQueen. O garimpo e as descobertas de stylists e estilistas nas lojas vintages surgidas do acúmulo de quatro décadas de indústria de prêt-a-porter engrossam o caldo do passado. Em São Paulo o fenômeno vintage é recente e ainda pouco popular.

Se for pensar bem, não é preciso produzir mais nada. Seria ideal reciclar os materiais pré-existentes. Contudo, esta premissa ainda é utópica em escala global. A indústria e o design ainda prescindem de matérias-primas virgens.

Nas aulas de física aprendemos sobre a “mola ideal” e sua constante elástica. A energia potencial da contração é proporcional ao da extensão. A crise de hoje faz parar, refletir, repensar e, quem sabe, melhorar. Só o otimismo e a mão na massa salvam.

Alguns metros adiante do prédio onde moro a padaria da esquina é um oasis dos tempos analógicos. Divulga show do Roberto Leal no Clube Português. Não tem catraca, nem ficha de plástico com código de barras. A cobrança é na base do papelzinho e da caneta bic. Mantém a mesma decoração (e talvez a mesma garrafa de Dreher dentro de uma vitrine suspensa na parede do fundo).  Vanguardista na terminação “ria”, não perdeu o bonde da história. Diversificou os produtos e ganhou ares de mini mercado. Apostou em mesinhas na calçada e assumiu sua natural vocação de ponto de encontro. Mas nunca deixou de ser a referência de pão francês da região. A sensação de caminhar com pãozinho quentinho dentro da embalagem de papel bem próxima ao corpo é pura intimidade afetiva. O sobradinho resiste.