arquitetura, design

plantas

“Costela de Adão tá acabando rapidinho”, disse o vendedor. Após uma pausa, ele promoveu: “mas esse cacto maiorizinho também está saindo bastante”.

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Trabalho de uma das integrantes do Clube do Bordado/ Imagem do Instagram

O diálogo aconteceu na virada de uma segunda para terça de dezembro na feira de flores e plantas do CEAGEASP. A visão e o olfato até se confundem com tanta cor e frescor. O sorriso sai fácil ao pisar pela primeira vez nos enormes galpões. O programa é para ticar “OK” na lista de passeios obrigatórios ao longo da vida de um paulistano.

A feira dá a dimensão da grandeza de São Paulo de maneira curiosa. Íntima. Imagina quantos vasos de orquídea existem na cidade? Sensação parecida, e bem menos perfumada, tive quando fui pela primeira vez à Zona Cerealista. A quantidade de entrepostos dedicados exclusivamente a vender alho dá a noção de quantas panelas refogam arroz todos os dias.

Em falta no CEASA, tem Costela de Adão ao montes na moda.

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Blusa Tigresse, usada pela Ana Maria Braga, foi uma dos itens mais procurados no atendimento ao telespectador da Globo. Melissa dos Irmãos Campana, inspirada na forma da folha. Conjunto com jeitinho retrô da grife carioca Wasabi. Brinco da grife de moda praia Água de Coco.

 

Já o cacto está atendendo a demanda nos dois lugares sem problemas .

 

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camisa preta Pyr∆mid; camisa rosa Svetlana e short Farm.

O WGSN cantou a bola para as estampas de plantas lá no verão de 2014, com sua Macro Trend: Next Nature. O assunto reverberou por aqui com força nesta temporada. Além do cacto e da Costela de Adão, vários outros desenhos de plantas verdejam o mundo da moda.

Na vida real, o cacto é bem popular e variado. Tem várias espécies, formas, cores e tamanhos. São boas opções para quem não tem muito tempo para cuidar, ou para quem anda sofrendo com baixa do Reservatório da Canteira. Aliás, a água de cacto promete desbancar o suco verde e a água termal nos quesitos saúde e hidratação.

Já a Costela de Adão foi muito usada em projetos de paisagismo dos anos 1950 e 1960. Voltou com tudo. O formato da folha lembra uma costela mesmo, por isso o apelido. O nome científico é Monstera Deliciosa. E ela dá um fruto que parece um quebra-cabeça. Nunca provei, mas era a iguaria tropical preferida da Princesa Isabel (a da Lei Aurea), segundo informa a Wikipedia. Pelo visto faz jus ao sobrenome latim.

O paisagista Burle Marx usava muito Costela de Adão em seu projetos. Apaixonado pelo seu ofício dizia: “Pode-se pensar em uma planta como uma pincelada, ou como um ponto de bordado”. As hortas caseiras e urbanas, jardins suspensos para os espaços pequenos, terrários, a busca por produtos orgânicos, se popularizam junto com as estampas. O clima do mundo anda mais para uma paleta de cinzas, de beges desérticos.  O espírito de tempo pede para reflorestar.

Ah! E se quiser uma costela de Adão, chega bem cedo à feira do CEASA.

arquitetura, design, história

sobradinho

Na frente do prédio onde moro tem um brechó. Por lá comprei uma blusa e um vestido. Total: vinte reais. A arquitetura da casa é bem típica da região de Pinheiros, Zona Oeste de SP. Ou um dia foi. É um sobradinho implantado em um terreno retangular. A frente é recuada para abrigar um veículo. Há uma escada para levar ao piso superior do quartos e outra para o  inferior, do quintal.

A casa onde nasci, na mesma rua, tinha a disposição semelhante. Ela e toda sua vizinhança foram derrubadas há alguns anos. Uma árvore plantada pelo meu pai na calçada é o único resquício do antigo número 361. Ela vive à sombra de muro alto construído para escoltar dois prédios de alto padrão. Todos os apartamentos da dupla têm varandas amplas circundadas por vidros verdes. Quase todas foram fechadas e incorporadas a sala.

Dois terrenos vazios deixaram a casinha do brechó ilhada. Suas colegas de estilo foram a baixo do dia para a noite há uns dois anos. E o brechó na verdade é uma venda de caridade. Ele está instalado na sala de uma sede regional do Narcóticos Anônimos. O imóvel também serve de estada provisória para alguns dependentes em recuperação. Os artigos alí vendidos chegam de doações dos vizinhos e ajudam nas despesas do lugar.

“Mais um empreendimento com as grifes…”, diz a placa ao lado esquerdo da casinha. Um um tapume de metal vermelho esconde o espaço já tomado pelo mato. A crise econômica deve ter atrasado o levante dos edifícios. Ainda não está claro se subirão dois prédios, um de cada lado, ou se surgirá uma engenhoca para aproveitar os dois terrenos em uma mesma construção. Tenho um pouco de medo de imaginar esta segunda opção.

Desenho da série "São Paulo Infinita"©, da ilustradora Juliana Russo

Desenho da série “São Paulo Infinita”©, da ilustradora Juliana Russo

Em 2012 o escritor Inácio de Loyola Brandão publicou: “As Paredes caem, uma a uma, nas Ruas de Pinheiros” . Uma reflexão sobre a transformação da mesma rua em questão, onde ele mora há mais de duas décadas. Spoiler. Seu texto termina com a citação:

E os seres humanos que davam vida a todas essas coisas? Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo? Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Eles não percebem – os sujeitos da transformação econômica – que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o ‘quartier’ e o mundo?

Nem toda casinha fofa tem valor histórico e precisa ficar de pé. A dinâmica da cidade muda. No entanto, a erupção de construções de mais de vinte andares deixou algumas regiões de São Paulo com aspecto de conjunto habitacional neoclássico de luxo, ou de vidro verde clean.

Em Pinheiros a padronização se manifesta no comércio. Há uma coleção de palavras em inglês distribuídas nas placas do bairro. “Pancake” (panqueca) anunciava o cardápio do food truck da rua Lisboa. Os estrangeirismos (há alguns nomes em francês também) sofrem concorrência forte dos títulos com a terminação “ria”. “Esmalteria”, “Cabelaria”, “Lasanheria”, etc. O limiar entre o cosmopolita e o clichê anda tênue.

Aquilo que comemos, as roupas que vestimos, os lugares onde vivemos são cada vez mais padronizados, porque a padronização é o preço que pagamos pelos preços que podemos pagar. Para a maior parte de nós, a vida decorre, monótona, como o tiquetaquear de um despertador. Habituamo-nos ao ritmo que nos é imposto pela nossa necessidade de subsistir. Ao fim de pouco tempo, começamos a gostar das nossas amarras. Escreveu Anthony Burgess, autor do livro “Laranja Mecânica”, no ensaio “A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal”, de 1973. A padronização, no entanto, parece também atrair quem tem cacife para optar pela exclusividade e pela liberdade.

“O Futuro é Vintage” anunciou uma piada do vídeo “Mudança” do Porta do Fundos. A brincadeira faz algum sentido.

No livro “Cronologia da Moda” o retrô do futuro está anunciado no capítulo dos anos 2000. Ele reverencia as décadas do século XX amplamente divulgadas pela Prada, pela Louis Vuitton na era Marc Jacobs, pela Gucci e pelo Alexander McQueen. O garimpo e as descobertas de stylists e estilistas nas lojas vintages surgidas do acúmulo de quatro décadas de indústria de prêt-a-porter engrossam o caldo do passado. Em São Paulo o fenômeno vintage é recente e ainda pouco popular.

Se for pensar bem, não é preciso produzir mais nada. Seria ideal reciclar os materiais pré-existentes. Contudo, esta premissa ainda é utópica em escala global. A indústria e o design ainda prescindem de matérias-primas virgens.

Nas aulas de física aprendemos sobre a “mola ideal” e sua constante elástica. A energia potencial da contração é proporcional ao da extensão. A crise de hoje faz parar, refletir, repensar e, quem sabe, melhorar. Só o otimismo e a mão na massa salvam.

Alguns metros adiante do prédio onde moro a padaria da esquina é um oasis dos tempos analógicos. Divulga show do Roberto Leal no Clube Português. Não tem catraca, nem ficha de plástico com código de barras. A cobrança é na base do papelzinho e da caneta bic. Mantém a mesma decoração (e talvez a mesma garrafa de Dreher dentro de uma vitrine suspensa na parede do fundo).  Vanguardista na terminação “ria”, não perdeu o bonde da história. Diversificou os produtos e ganhou ares de mini mercado. Apostou em mesinhas na calçada e assumiu sua natural vocação de ponto de encontro. Mas nunca deixou de ser a referência de pão francês da região. A sensação de caminhar com pãozinho quentinho dentro da embalagem de papel bem próxima ao corpo é pura intimidade afetiva. O sobradinho resiste.

arquitetura, cinema

um filme para o meu avô

um amor “sem concessões ao barroco”*

*Texto escrito para o site da Ocupação Vilanova Artigas no Itaú Cultural e publicado também no FFW

O professor de roteiro advertia que adaptar uma história real para a ficção pode ser uma tarefa árdua. Um roteiro de ficção precisa de uma estrutura, e de certa lógica, já os fatos da vida real nem sempre fazem sentido.

Camisa e o paletó do smoking do meu avô
André Seiti/Itaú Cultural©

 

Em 2009 me deparei com vida de Vilanova Artigas acumulada em caixas e pastas em um quatro na casa dos meus pais. Desenhos e mais desenhos.
Artigas foi um arquiteto do “breve século XX”, segundo o conceito do historiador inglês Eric Hobsbawm. Ele nasceu durante a Primeira Guerra e morreu antes da queda do Muro de Berlim. Era comunista. E pôde viver a Guerra Fria que pautou o período in loco. Morou nos Estados Unidos, fez seu próprio “on de the road” nos anos 1940, antes do Jack Kerouac, e passou alguns meses na União Soviética mais tarde, em 1953.
As palavras de Artigas seduziram alguns e incomodaram outros como o governo militar, por exemplo . Vovô tinha uma verve potente, mas dizia as coisas mais belas quando desenhava. Seu traço era livre e preciso e o enfrentamento do papel em branco foi o desafio favorito no mundo, ponto de convergência entre a razão e a emoção. Lugar onde seus sonhos ganhavam forma. E ele tinha muitos. Dedicou a vida a colocá-los em prática.
Os rascunhos dos artistas sempre me pareceram mais interessantes do que a obra final. Promovem aquela adorável subversão de espiar a intimidade alheia. Conviver os desenhos do Artigas foi o primeiro passo para tentar retomar nossa convivência de quatro anos.
Minhas memórias a seu respeito foram construídas graças às muitas e muitas histórias contadas por minha avó, pelos meus pais e por alguns amigos dele com quem convivi desde pequena. Uma sequência de fotos feita no inverno de 1983 na casa do Campo Belo, a segunda residência do arquiteto, projeto de 1949 – me ajudou dirigir as cenas mentais. Nela, visto um conjuntinho de moletom vermelho e seguro uma amostra de carpete verde (nos anos 1980 os apartamentos da classe média costumavam ter piso de carpete). As amostras de material de construção que ele recebia aos baldes eram brinquedos divertidos. A da foto decorou a sala da Barbie por um tempo.
Ser “neta do Artigas” é nascer com uma bagagem cultural privilegiada, é acostumar-se a viver em locais bem projetados e sentir-se muito triste sem luz natural. Contudo, também é nascer coadjuvante. Por isso, durante muito tempo a pergunta “Você nunca pensou em ser arquiteta?” soou como uma ofensa. Costumava a me referir ao papo sobre arquitetura como “arquitetês”.
Aprendi o básico da língua por osmose, ainda que não domine sua gramática E esta ficha caiu em um momento bastante trivial. Uma colega de trabalho organizava o casamento e reformava o apartamento simultaneamente comparava o valor da decoração de flores do salão de festas e o preço cobrado pelos arquitetos para fazer o projeto executivo da obra. Optou por pagar o primeiro e dispensou o segundo, preferindo dar um “jeitinho”. As flores ficaram lindas e obra custou três vezes o planejado. Assim, compreendi que a profissão do meu avô era vista como um luxo e não como uma necessidade pelos não alfabetizados em “arquitetês”.
Comprar um projeto de arquitetura é comprar um plano. Um sonho. É subjetivo. E os brasileiros nunca foram muito bons em planos e investimentos a longo prazo. Artigas entendeu este calcanhar de Aquiles nacional desde cedo. Ele amava o Brasil e criou efetivamente, desenhando em muitos papeis, o projeto para o país melhor. Começou a colocar o plano em prática quando fundou a FAU-USP em 1948 e depois liderou a reforma de ensino da instituição em 1962. A solução era bastante objetiva: formar profissionais humanistas, instruídos para construir efetivamente uma sociedade mais justa.
Artigas argumentava que um aluno de primeiro ano não poderia ser tratado realmente como um ser “sem luz”, tal qual sua etmologia (do latim alumnié = “sem luz”). Pois, ele já acumulava experiências de viver em casas e em cidades. O teto da FAU-USP é totalmente transparente para iluminar as mentes e as pranchetas dos estúdios de projetos.
Nos desenhos das casas de Artigas as salas são amplas, os quartos pequenos e os banheiros poucos. Artimanhas que obrigam a interação familiar. A convivência era outra bandeira dele, porque só ela explicita personalidades, promove e supera os conflitos absolutamente humanos.
A curiosidade sobre o meu avô foi nutrida pela faculdade de jornalismo e instrumentalizada na especialização em roteiro de cinema. Tinha, portanto, uma história com uma curva dramática potente, protagonista com conflitos internos e externos bem definidos, e dois pontos de virada no cômodo ao lado na casa da família.
Minha busca maior no filme foi tentar sentir como era estar com ele. Assim, no documentário “Vilanova Artigas: O arquiteto e a luz” (que também dirigi) os entrevistados emprestaram suas sensações. Tanto na convivência pessoal, como nas conclusões viscerais sobre vivenciar uma obra sua.
“Sem nenhuma concessão ao barroco”, disse o Artigas sobre o projeto da FAU-USP em 1973. Nesta jornada comecei a compreender o meu avô. Esta frase talvez resuma sua personalidade, seu estilo de projetar e sua atitude em relação ao mundo. Ele buscava a simplicidade, a essência e o necessário, a razão, o amor – pelas pessoas e pelo fazer. Artigas amou muito. Qualquer semelhança com a ficção será mera coincidência.