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Laura Artigas

cinema, história, livro

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Com o auxílio de uma tesoura o marido despe Georgiana, convertida em Duquesa de Devonshire naquele dia. Ela veste um traje típico do século XVIII. Um vestido com um corpete bem ajustado que desemboca em uma saia rodada cujo volume é amplificado por uma crinolina. É noite de núpcias. Ela é virgem. Não há carinho, nem romance. O sexo será apenas protocolar. O casamento arranjado visa a manutenção do status quo da nobreza inglesa. Eles travam o seguinte diálogo:
– Nunca vou entender porque as roupas das mulheres são tão complicadas.
– Acho que é a nossa forma de se expressar…
– O que você quer dizer?
– Vocês (homens) têm muitas maneiras de se expressar, mas nós não. Por isso falamos por meio de chapéus e de vestidos.
Protagonizado pela atriz Keira Knightley, o filme “A Duquesa” venceu o Oscar de melhor figurino em 2009 pelo trabalho de Michael O’Connor.

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A inglesa Frances Corner professora da London College of Fashion publicou em 2015 o livro “Why Fashion Matters” (“Porque a moda importa”) no qual defende a importância da moda para a sociedade e chama atenção para a necessidade de reestruturação das práticas do mercado. Neste vídeo do TED (em inglês) ela resume o conteúdo de sua obra.

(No Brasil, o livro “Moda com Propósito” do publicitário carioca André Carvalhal, lançado em 2016, também vai levanta a bandeira da reestruturação).

Na edição de abril da revista Piauí havia texto sobre a última edição do São Paulo Fashion Week, contendo a seguinte frase: “O fato é que a moda, por mais que se esforce, não consegue se livrar da melancólica impressão de frivolidade que transpira”. O um relato reafirma a má fama que ainda paira em relação ao mundo da moda combatida pela professora inglesa.

Os atuais debates sobre gênero fazem pensar que a moda (ainda) é colocada em segundo plano como forma de conhecimento do mundo – inclusive no âmbito intelectual, porque é espaço dominado por mulheres e gays. A força de trabalho desta indústria é majoritariamente feminina: 85% e a média global e 75% a nacional. Aliás fica a dica da leitura desta super reportagem, onde constam esses dados.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres também conseguiram se expressar por meio do vestuário, mais especificamente pelos acessórios. Em meio ao racionamento de tecidos, as peças eram bastante padronizadas e com inevitável influência militar, a resistência aconteceu por meio de chapéus, de listras desenhadas nas pernas para fingir a meia calça, ajustando e encurtando o comprimento da saia.

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Cena em que “A Duquesa” tem a oportunidade de falar em público, com palavras e com as roupas (2008)

E lembrando da Georgiana aí em  cima, as roupas, então, como uma forma de expressão, são uma espécie de tradução em libras, quando as vozes não podem ecoar. Neste mundo doido estamos vendo por aí é bom escutar o que a moda anda cochichando.

arquitetura, crônica

“A Pele que habito”

um bom projeto arquitetônico é sutil aos olhos e intenso ao coração
colaboração para a revista Plastic Dreams da Melissa SS18

UM PROJETO DE ARQUITETURA de um espaço (ou a falta dele) influencia profundamente as nossas sensações. A incidência de luz natural e o número de divisórias de uma casa, por exemplo, são elementos definitivos para o tipo de relação que construímos com as pessoas com quem convivemos.
A “Casinha” (1942), primeira casa que meu avô, o arquiteto Vilanova Artigas, projetou como morada, e onde brinquei na infância, tem apenas as portas de entrada e um único banheiro. Para os estudiosos, é um de- leite formal. Para mim, sempre foi o lar que ele fez para a namorada (a vovó). A vivência neste espaço livre foi determinante para solidificar a relação de confiança e cumplicidade como um casal longevo. Ao caminhar pelos ambientes fascinantes do MASP, em São Paulo, dificilmente pensamos sobre o gênero do seu idealizador. Lina Bo Bardi, a autora do projeto, se autointitulava “arquiteto”. Ela escreveu seu nome na história da cidade – feito até hoje raro para as mulheres desse meio. Em 38 anos do Prêmio Pritzker (espécie de Oscar da arquitetura), apenas duas mulheres foram laureadas: a iraniana Zaha Hadid (1950-2016) e a japonesa Kazuyo Sejima, cujo título foi dividido com seu sócio no es- critório SANAA. Por aqui, mais da metade dos registros profissionais feitos no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) são de mulhe- res. Paradoxalmente, poucos nomes femininos reverberam com força no mercado e na mídia.
A carioca Carla Juaçaba quebra a regra e vem ganhando notoriedade neste grupo ainda restrito. Ela levou o Prêmio Arcvision, dedicado às mulheres, em sua primeira edição (2013). Sua obra transita entre a arquitetura e a expografia. Nas casas que desenha, sua preocupação é respeitar o entorno e a história do lugar. “A arquitetura pode ser encanta- dora de maneira imperceptível. Sentir-se feliz em um espaço não passa por teorizar sobre suas formas”, diz.
Ela criou a megaestrutura de andaimes da exposição “Humanidade”, du- rante a conferência sobre meio ambiente Rio+20, em 2012. “A proposta foi reverenciar a geografia de Copacabana”, relembra. A opção pelo material efêmero se relacionava com o contexto do período e com a responsa- bilidade ambiental demandada pelo evento. “O Rio de Janeiro vivia em obras em função dos eventos que viriam (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos), e o material pôde ser reaproveitado em outras construções”, complementa. Como Lina Bo Bardi, Carla também prefere dispensar atribuições femininas ao seu trabalho. Contudo, ela observa:“Lendo os poemas da polonesa Wisława Szymborska (vencedora do Nobel de Literatura em 1996) penso que dificilmente um homem escre- veria daquele jeito”. Certamente meu avô diria que a boa arquitetura não precisa ser definida por gênero e, sim, por amor.

entrevista, história, livro

urbanas

“As roupas são capazes de anunciar revoluções, como afirmou a lendária editora de moda Diana Vreeland, em cada esquina de São Paulo há cenas dos próximos capítulo”.

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Esta frase conclui o texto de apresentação do livro “Urbanas”, lançado em maio pela editora Livre Conteúdo.

O impresso derivou um documentário, no qual algumas fotografadas refletem sobre si mesmas, e sobre a condição feminina na cidade. Aqui:

Ambos foram capitaneados pelo editor Ricardo Feldman. Esta que vos escreve (#autopromoção) fez a pesquisa, a entrevista, é co-autora do roteiro do documentário e dos textos de apresentação do livro – uma retrospectiva da moda do século XX, com um capítulo especial para as duas décadas do novo milênio. Registro bem importante do streetstyle nacional feito por uma equipe de jovens fotógrafos desbravadores dos quatro cantos paulistanos. O conteúdo do projeto é um retrato do zeitgest atual. #ficadica