crônica, viagem

varal

Havia um tapete secando no meio da calçada. A lavanderia da rua improvisou um varal com duas araras para quarar toda a extensão da peça. Se secar roupas em apartamento pode ser uma tarefa árdua, imagine um tapete?
No domingo um casal estendia as roupas da família na laje ao ar livre. Era uma manhã de sol após uma semana intensa de chuva. A roupa ia secar rapidinho. O vão entre o viaduto pela qual caminhava e a casa não permitiram a comunicação verbal. A dona do varal retribuiu meu sorriso. Ainda se usa o sorrir para fazer contato com outro ser humano.
Pelas vielas do bairro da Alfama em Lisboa é comum esbarrar com varais (aliás, em algumas cidades da Itália também). Alguns suspensos, outros no nível da rua mesmo. Sutiãs, cuecas, saias, panos de pratos, toalhas paralelos aos turistas. Sem maiores constrangimentos. Mesmo longe da Alfama, em edifícios residenciais mais novos e mais altos, lá está o varal debruçado nas janelas provocando vertigem aos desacostumados com a tradição portuguesa. Imagina o trabalho que dá se uma delas escapar e se espatifa no chão? Os vizinhos não roubam? Perguntas que povoam imaginários forasteiros.

Em condomínios residenciais em São Paulo (e em outras cidades provavelmente) deixar o varal à vista na sacada ou uma banda do lençol para o lado de fora da janela é infração grave, digna de multa.
Avançando um pouco mais nos meridianos, uma mulher japonesa processou o google por divulgar a imagem de seu varal no street view. Seu argumento de acusação incluiu transtornos psiquiátricos desenvolvidos após a publicação de fotos de suas peças íntimas em escala global.
A área de serviço alheia funciona como um pequeno censo. É possível identificar o número de habitantes de uma casa, gênero, faixa etária, classe social e os hábitos de consumo. É também desvendar traços da personalidade. Como as preferências das roupa íntimas, o zelo ou descuido com as peças. É como ler um diário da dos habitantes da casa.
Questão ambígua. Por um lado esconder o varal é um direito à privacidade. Por outro, o receio extremado de assumir o básico de uma sociedade dita moderna: todo mundo lava roupa, usa calcinha, tem lençóis velhos e pouco espaço para lavar tapetes. Humano. Demasiado humano.

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