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Há seis meses ela se veste exclusivamente com roupas de outras pessoas. Toda segunda-feira, a atriz e perfomer Beatriz Cruz @falecombia cumpre o ritual da obra batizada de “Descaracterizar-se”. Ela vai à casa de alguém disposto a emprestar ítens do próprio guarda-roupa e vai embora levando uma muda suficiente para uma semana. Quem lhe empresta as peças explica a maneira correta de combiná-las. São looks completos – com direito a bolsa, acessórios, esmalte, maquiagem e o penteado. Até roupa de dormir também vale. Roupa de baixo, só se a pessoa oferecer. Se usar sutiã aparente faz parte do estilo, a peça vai no pacote. Não importa o gênero de quem se propõe a experiência, tampouco o tamanho das roupas.

Ela posta as fotos dos “looks do dia” no  @projetodesandar, acompanhada de anotações sobre as sensações e os acontecimentos que protagonizou vestindo a roupa. “Descaracterizar-se” é uma das ramificações de uma ideia maior que coloca o prefixo “des”na frente de verbos costumeiros do cotidiano. 

O ciclo começou com os familiares. Um indicava o outro. Depois de um tempo ela abriu para completos desconhecidos. Hoje ela alterna o guarda-roupa de pessoas próximas e dos interessados na experiência.

Bia deixa um caderninho com a pessoa que empresta as roupas, caso esta queira compartilha e descrever alguma sensação. Durante o processo, ela manda mensagens de whatsapp com fotos dos looks e pede orientação de combinações.

As roupas, o vestir e seus processos, aliás, andam permeando o imaginário de vários artistas. Vale lembrar dos Parangolés do Helio Oiticica. Ano passado o projeto #ForadaModa, que rolou no SESC Ipiranga pontuou esse diálogo entre arte e moda. O projeto Meio Fio, trouxe à luz alguns artistas que também usam a moda como forma de interlocução com o mundo. Em qualquer palestra, relatório ou livro que proponha a ensinar como observar a dinâmica das tendências de comportamento, uma dica é tipo: “observe os artistas porque eles costumam ser mais livres e tem um radarzinho sensível para o futuro”. *** Antes de escrever este post ela usou minhas roupas. Experiência intensa. É igualmente assustador e libertador ver outra pessoa “sendo você”, mesmo que por uma semana. Primeiro veio um incômodo do reflexo, depois uma sensação “não estou sozinha no mundo” – outra pessoa pode parecer comigo. Ver uma roupa querida em outro corpo também atiça as memórias.  As interpretações sobre esse trabalho são múltiplas e profundas. Ainda estão em processo de digestão. Bia vestida com as roupas da dona deste blog.

Beatriz Cruz subverte os paradigmas do cotidiano ato de vestir. O trabalho está em pleno processo, e ela ainda não tem certeza sobre seu rumo. O importante neste momento parece ser a possibilidade de conviver com outras pessoas e literalmente vestir a camisa do seu processo criativo.

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