cinema, crônica, história, televisão

por favor,

O alto-falante das estações e vagões de trem e de metrô em São Paulo parece ter aumentado o número de recados nos últimos anos. “Antes de entrar no vagão espere os outros passageiros saírem”, “cuidado com o seus pertences”, “não estimule o comércio ambulante” e o clássico mundial “atenção ao vão entre o trem e a plataforma”.

Esta ultima frase é uma das marcas registradas de Londres. “Mind the Gap” (em inglês) estampa toda sorte de souvenires da cidade. Contudo, por falta de espaço, não colocam a frase inteira que vem precedida de um “please” (por favor) e sucedida por um “between the train and the platform” (tal qual São Paulo). Em Londres, aliás, muitos dos avisos ao público espalhados pela cidade vem antecedidos de “please”.

A convivência com estranhos é a condição básica da vida na metrópole. Aqui em São Paulo é bem comum ouvir um “_cença” em voz bem baixinha e zero interativa para comunicar que está ocupando o assento ao seu lado no transporte público. Também é de praxe escutar um “bom dia” sussurrado e de cabeça baixa quando se vê obrigado a compartilhar o elevador corporativo com desconhecidos. Quando o “com liçenca” ou “bom dia” são ditos com vigor e todas as letras as reações podem ser diversas. Sorrisos, indiferença ou simplesmente a surpresa com a animada educação. Às vezes, pode mesmo parecer estranho soltar as três “palavrinhas mágicas” (com licença, por favor e obrigada). É como se elas abrissem um portal para o espaço e para a intimidade do outro.

Os ingleses são conhecidos pelo seu jeito polido de tratamento (apesar de serem os campeões mundiais da imprensa sensacionalista). Mas não é sobre a etiqueta urbana que trata este post, muito menos para falar que “os ingleses são mais educados que os brasileiros”. Mas talvez os anos de “please” acumulados tenham enraizado a palavra no dia-a-dia do cidadão londrino. Numa escala muito maior está a mensagem subliminar do conteúdo audiovisual.

No Dia da Mulher fui com minhas queridas amigas “do meio” no escritório do Google Brasil ver o Simpósio Global sobre Gênero e Mídia. O evento aconteceu em parceria com o Instituto da Geena Davis. A instituição fundada pela protagonista de “Thelma e Louise” é dedicada a monitorar a representação da mulher no cinema e na TV. A palestra começou com a animação institucional chamado “See Jane”.

A problemática da representação na mulher na mídia começa ainda na programação infantil. O slogan da campanha da organização é: “se ela pode ver, ela pode ser”. O conteúdo audiovisual que as pequenas “janes” do mundo assistem desde pequeninhas vai influenciar profundamente em suas escolhas adultas.

Apesar das questões de gênero no Brasil estarem longe de serem resolvidas, segundo o Instituto, o país é território promissor. Tem um dos maiores índices de representatividade feminina no setor em todo mundo (tipo o 4º da lista). E destaca-se o grande número de mulheres nos cargos de produção e produção executiva (esta última, uma espécie de diretor de negócios do filme. Quem pega o Oscar de melhor filme é o produtor. Ele que viabiliza o filme como um negócio). No entanto, as cabeças criativas, leia-se diretor e roteirista são predominantemente homens (e brancos) no Brasil. Respectivamente 80% e 70%. E não por acaso, mais de 63% da população consideram a imagem da mulher representada de maneira demasiadamente sexual.

O Simpósio terminou com a apresentação de uma ferramenta maravilhosa que calcula o tempo de tela e o registra o conteúdo dos diálogos dos personagens nos filmes. Daqui em diante, o monitoramento da representatividade feminina será portanto matemático, impossibilitando maiores desculpas.

O teste de Bechdel já havia alertado. São pouquíssimos os filmes nos quais os diálogos das atrizes não girem em torno de um homem e da sua relação afetiva. Conversando com a minha amiga Katia, craque em “Coaching” (espécie de terapia e orientação profissional bastante em voga), ela me explicou que a relação amorosa representa apenas 1/12 da vida de uma pessoa. Contudo, talvez por culpa dos contos de fadas que moldaram a infância das meninas até a Geração Y, o peso social do relacionamento conjugal parece ser muito maior para uma mulher adulta.

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No audiovisual o cenário anda mudando rápido, é verdade. Muito mais mulheres têm tido oportunidades. Depois do Simpósio, conversamos entre amigas e analisamos nossas próprias trajetórias. Mesmo com mais referências culturais, maior disposição para a labuta e a melhor formação do que boa parte dos homens do alto clero do mercado, as oportunidades para cargos de maior responsabilidade e chefia sempre foram menores. Além de ser bem comum ficarmos estigmatizadas por determinados trabalhos. Nosso crédito parece ter os juros mais alto.

A invenção do cinema aconteceu na Europa, porém, não engatou em marcha rápida porque o continente foi assolado por duas guerras e a produção cinematográfica ficou bastante comprometida. Em clima de tristeza, o entretenimento é uma ótima opção de fuga da realidade. Os astutos produtores de cinema dos Estados Unidos logo “mind the gap” e aproveitaram para construir e consolidar a maior indústria cinematográfica do mundo. Assim, os EUA sairam da Segunda Guerra fortalecidos financeira e politicamente, além de estrategicamente bem respaldados pela liderança no inconsciente coletivo cinematográfico mundial.

Antes do feminismo retornar com força à agenda do mundo e antes do netflix, lembro de ter lido uma edição especial National Geographic Brasil sobre o tema. Uma das reportagens tratava sobre a influência das novelas no comportamento das mulheres brasileiras. Havia a constatação que as protagonistas tinham um impacto positivo na vida das mulheres de regiões mais carentes do país. Havia inclusive um dado sobre o impacto das novelas na redução da natalidade. Contudo, a hipersexualização da mulher e a representação de classes, constatada na pesquisa anteriormente citada ainda é uma contradição nestas produções televisivas.

Em 2012 uma Lei Federal garantiu que parte da produção dos canais de Tvs a cabo, inclusive dos internacionais, fosse “Made in Brazil”. Além de garantir o avanço e a profissionalização do mercado audiovisual local, foi um passo importante para ampliar as possibilidades de formação do “inconsciente coletivo” nos próximos anos e acostumar os brasileiros com a produção nacional. O cinema avança no mesmo caminho. Os resultados não serão imediatos. Para os EUA, por exemplo, incrustar seus mínimos detalhes culturais na subjetividade do mundo foram quatro décadas.

Apesar da percepção sobre os caminhos sempre mais tortuosos para as mulheres, o cenário é bastante promissor. O cuidado com o “vão entre o trem e a plataforma” é cada dia maior. O próximo passo é vir o “por favor” bem pronunciado. Menos por obrigação, mais por vontade de conviver.

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