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cérebro

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Colagem para o Kansas City Medical Journal.

Depois de ler uma matéria fiquei um pouco stalker da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel e bastante curiosa sobre a ciência do cérebro. Quando você se concentra em um tema passa enxergá-lo por todos os lados. Em um domingo de preguiça esbarrei com “Tempo de Despertar”, filme com Robin Willians (o médico) e Robert de Niro (o paciente) baseado no livro homônimo do neurologista e escritor Oliver Sacks (1933 -2015). O enredo prova que para entender o que temos dentro da cabeça é preciso dominar as biológicas, as exatas, mas principalmente as humanas. E o próprio autor deu o exemplo em vida.

No TEDx acima a pesquisadora brasileira revela a diferença entre o cérebro humano e o cérebro dos outros animais: “Nós cozinhamos”, resume. Os outros animais gastam muito tempo procurando e digerindo o alimento. Pensa na Sucuri. Ela come um boi inteiro com chifre e tudo depois fica um tipo um mês digerindo. Cozinhar os alimentos economiza o trabalho das enzimas digestivas. Por isso gastamos menos calorias para absorver o alimento e nos sobra mais tempo para fazer outras coisas.

Em uma conversa despretensiosa com a minha amiga e psiquiatra Camila, comentamos que o cérebro é paradoxalmente supervalorizado e desvalorizado na nossa sociedade. É supervalorizado por sermos felizes proprietários de massa cinzenta desenvolvida nos achamos melhor que as outras espécies, e é bastante comum usá-la para oprimir a mãe natureza e seus semelhantes. Por outro lado, investimentos em ginástica, pilates e outros esportes para manter o corpo em forma, mas nem sempre lembramos que o cérebro também precisa se exercitar. Ele também fica flácido. A soma de muitos cérebros sedentários gera grandes estragos.

A preocupação com a boa alimentação, com noites bem dormidas e com a manutenção das relações afetivas são a chave para um cérebro saudável, mas não é tudo.

Em outro TEDx (sim, sou um pouco viciada em TEDs), a escritora Susan Cain, discorre sobre a introspecção. Antigamente, a vida rural não propiciava grandes transformações. Tudo era altamente previsível e não necessitávamos de tantas máscaras sociais para conseguir conviver em sociedade, porque esta pouco se transformava ao longo da vida. Com a urbanização e a aceleração da sociedade de consumo, na qual tudo ficou mais efêmero, o ser humano precisou se adaptar a uma certa representação social – tipo de ator mesmo. As possibilidades de escolha aumentaram. Emprego, relacionamento e estilo de vida podem mudar a gosto do freguês. Nada mais precisa ser definitivo como era na época da fazenda. Contudo, foi preciso aprender a ser mais político para conseguir conviver, por exemplo, com aquele colega de trabalho ou chefe com valores de vida diametralmente opostos aos seus (para não dizer diretamente que ele é insuportável) e engolir sapos em prol da manutenção do salário e do círculo social.

As pequenas “traições” à sua subjetividade, no entanto, vão aos poucos gerando pequenos traumas. Um alí. Outro aqui. E quando você vê seu cérebro “deu ruim”. Não há alguém (exceto aquelas pessoas que vivem isoladas sem contato com outros seres humanos) que vai passar a vida inteira sem ter algum momento de pane cerebral. Fazer terapia continuamente serve para exercitar seu “seu eu interior”, segundo minha amiga Dra., e entender o que é realmente a sua essência e o que os outros (que “são o inferno”) projetam em você.

E a autotraição pode ser imperceptível. Todo dia subvertemos nossa herança primata. Não vamos dormir quando o sol se põe. Não tiramos uma soneca depois de comer. Nos exercitamos muito menos do que nosso corpo cheio de articulações e músculos potentes pede, entre outras demandas selvagens. Ao contrário, cada vez menos há tempo para respeitar as demandas do organismo. Não é por acaso que a onda slow anda em voga.

A introdução do filme argentino Medianeras mostra a relação da arquitetura com as patologias da psiqué. Além da sensação de claustrofobia promovida pelos apartamentos cada vez menores, as janelas minúsculas limitam a entrada de raios solares. Menos luz, menos absorção de vitamina D. A substância estimula a produção endorfina – o hormônio da felicidade. A depressão e a ansiedade viraram doenças crônicas nas metrópoles. Outro filme, “Terapia de Risco”, revela como uso indiscriminado de ansiolíticos e antidepressivos dá margem para um thriller. Em um dos diálogos da trama duas mulheres comentam sobre os remédios que tomam como quem compara marcas de xampu.

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Social Interaction and Teamwork Lead to Human Intelligence

A internet mudou a dinâmica das coisas e está todo mundo meio sem saber o que será do futuro. Entender o bê-a-bá do funcionamento da nossa cabeça e como ele impacta no dia-a-dia pode ser um jeito recomeçar sob uma perspectiva mais saudável. A inteligência e a criatividade, quando usadas para o bem, emocionam. Isso nunca vai mudar.

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