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sobre o filme “As Sufragistas”

Em uma vitrine, um manequim feminino com um lindo “vestido de visita”, combinado com um chapéu de aba larga adornado, está comodamente sentado em uma espreguiçadeira. Ao seu lado está o manequim de um bebê com uma roupinha elegante. Os dois parecem felizes. Do outro lado do vidro a funcionária de uma lavanderia os observa com o olhar terno. Seu pequeno devaneio é interrompido abruptamente por uma pedra que estilhaça a vidraça. Ao fundo uma mulher grita: “Voto para as mulheres”. Esta é uma das primeiras cenas do filme: “As Sufragistas” que vai estrear em dezembro.

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Um grupo de mulheres inglesas se uniram a partir do final do século XIX. Na primeira década do século XX o movimento começou a ganhar corpo para reivindicar o voto feminino.

A situação era bem crítica. Além de trabalhar em jornadas de mais de doze horas, cuidar da casa, do marido e dos filhos, as mulheres conviviam com abusos sexuais constantes por parte dos patrões.

As militantes começaram tentando debates pacíficos com o governo e não obtendo respostas, parte delas se radicalizou e passou a usar táticas mais agressivas, dignas de um filme de ação.

“As Sufragistas” (Direção: Sarah Gavron; Roteiro: Abi Morgan) conta a história de Maud (Carey Mulligan), funcionária de uma lavanderia em Londres. Uma colega de trabalho é integrante do movimento sufragista e a convence a dar um depoimento na corte sobre sua situação de vida e trabalho. Ela passa a frequentar o grupo e a convivência com as revolucionárias a faz refletir sobre sua condição. Aos poucos ela vai se tornando uma soldada.

Mais adiante na trama, quando questionada pelo policial sobre as práticas violentas do grupo, ela responde: “a guerra é a única linguagem que os homens realmente entendem”. O policial argumenta: “mas vocês estão infringindo a lei”. Ela replica: “eu não ajudei a fazer estas leis”. É bem bonito ver como a atriz conseguiu mostrar a transformação da personagem com um crescente de força no olhar.

Além da temática impactante, trata-se de um bom filme cinematograficamente falando. Tomara que os críticos não o rotulem apenas como “filme feminista”.

Assisti “As Sufragistas” durante o Festival de Cinema de Londres. Após a sessão houve uma conversa com a produtora executiva Faye Ward. Mesmo com um elenco estrelado confirmado – Meryl Streep, Carey Mulligan e Helena Bonham Carter – Ward lembrou que foi um grande desafio viabilizar o projeto financeiramente em virtude do tema. Foram seis anos. Além disso, ela também revelou que a equipe de pesquisa teve muita dificuldade para encontrar notícias de jornal e documentos históricos referentes ao tema para agregar elementos fidedignos ao roteiro.

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a equipe do filme é feminina

O figurino do filme é super fiel. Em entrevista ao NY Times, a figurinista Jane Petrie descreveu o processo de garimpo das peças. Ela percorreu brechós e feiras vintage de Londres em busca de peças datadas da época, ou seja, centenárias. “Cansado” foi o termo que ela usou para descrever o visual da protagonista Maud, mas sem traços de fraqueza ou desleixo. Sua principal referência veio do trabalho do fotógrafo Edward Linley Sambourne, uma espécie de The Sartorialist do seu tempo.

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A única personagem do filme que realmente existiu foi Emmeline Pankhur, a líder sufragista interpretada por Meryl Streep. Sua aparição é bem rápida e precisava ser impactante. “Ela era a figura inspiradora para aquela multidão de mulheres”. Em uma de suas fotos verdadeiras, Pankhur aparece com um casaco de manga longa semelhante ao que os pastores americanos usavam. Sua roupa faz referência a isso.

Antes dos créditos finais aparece uma lista com o ano de aprovação do voto feminino em diversos países. Na Inglaterra aconteceu em 1918. O primeiro país a aprovar o voto feminino foi a Nova Zelândia em 1893. O Brasil aprovou em 1932, antes da Itália e da França. As mulheres da Arábia Saudita puderam votar pela primeira vez em 2015.

Curiosidade: em Mary Poppins, a mãe dos garotos é uma Sufragista, contudo, no final do filme ela transforma a faixa do movimento em rabo para a pipa do filho. Simbólico, não? Walt Disney salpicando conservadorismo.

Minha avó integrava o movimento feminista aqui no Brasil (e escrevia uma coluna de moda em um jornal operário <3). Contudo, a ficha da importância de ser feminista (sem o reducionismo ainda vigente, levado a cabo em milhares de comentários ignorantes na internet) caiu há uns três anos, quando assisti a uma palestra do escritor Valter Hugo Mãe. Ele contou que antes de se dedicar à literatura, trabalhava como defensor público em Portugal. Boa parte dos casos que cuidava estavam relacionados a violência contra a mulher. Tanto a violência física propriamente dita, como o corriqueiro abandono do lar pelo pai. Em seus livros o tema é recorrente. E em sua fala, quando perguntado se era um feminista, ele disse que sim, e concluiu: “Todos os problemas da humanidade são causados porque as mulheres são subjugadas pelos homens”.

A afirmação faz sentido. Evoluímos do chipanzé que vive em uma sociedade grupal liderada por um macho. Ao longo dos anos o homo sapiens foi sofisticando o seu DNA. Mesmo com o cérebro já desenvolvido o suficiente para entender o que é racional e o que não é (e conter determinadas atitudes pré-históricas) a organização da sociedade dos chipanzés ainda paira sobre a raça humana. A demarcação de território, a guerra com outros grupos de chipanzés, a disputa pelo acasalamento e pelo alimento… O cérebro mais evoluido também serviu para incrementar o nível de violência da espécie. Como observou, com pleno conhecimento de causa, o fotógrafo Sebastião Salgado no sensível documentário “O Sal da Terra”: “somos animais muito ferozes, nós os humanos”.

Pensando poeticamente, se tivéssemos evoluído de aves como o albatroz, a calopsita, ou o Pinguim, tudo seria bem diferente. Além de geneticamente monogâmicas, entre estas espécies as tarefas são divididas. A fêmea sai para buscar comida e o macho também choca os ovos. Poderíamos voar.

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