cinema

para Aída

nunca amar a nada e a ninguém é a única receita infalível para não sofrer
Aída Bortnik (1938-2013)


Ontem faleceu a roteirista e escritora  argentina Aída Bortnik, ela foi minha professora de roteiro em Buenos Aires.
As aulas de Aída Bortnik
aconteciam na sala de sua casa. Um apartamento amplo no 13º, e último, andar
de um edifício na Avenida Pueyrredon em Almagro, bairro judaico e berço do Tango. Funcionavam no esquema sarau: cada um lia seu texto
em voz alta. O cômodo era tomado de estantes repletas de livros e os alunos sentavam em círculo a sua volta.

Aída não andava. Vítima de inúmeros problemas de saúde, ministrava as aulas sentada em uma cadeira adaptada disposta no meio da sala, com uma mesinha a sua frente. Ouvia minuciosamente cada um dos cerca de 50 alunos que frequentavam o curso divididos em turmas menores nas noites de terça a sexta. E aproveitava o intervalo da aula, quando nos era servido uma janta caseira, para devorar algumas páginas de livro. Os encontros eram semanais e jamais um título se repetiu
em sua mesa.

Havia uma grande varanda tomada por uma roseira colorida e muito bem cuidada. Era o mirante perfeito para o pôr-do-sol
rosado e brilhante. Durante a primavera, quando o sol se põe mais tarde, ela
interrompia a aula para que contemplássemos as cores do lusco-fusco. Com ela
também aprendi a notar as tonalidades de marrom dos troncos das árvores e as infinitas possibilidades de poesia da natureza.
As tarefas que passava eram sempre
baseadas na leitura de grandes textos literários. Falava de Camus, de Dickens, de
Shakespeare, de Salinger, de Faulkner, com a alegria contagiante de quem
descreve um grande amigo, e alguns escritores de fato o eram como Gabriel Garcia Marquez (“el
Gabo”). Era apaixonada por Borges, e não tão fã de Cortázar, para citar os
baluartes da literatura nacional.
Da primeira a última aula o
nervosismo foi o mesmo, mas o sotaque brasileiro foi amenizando ao longo do
ano. Ela jamais abriu concessão pelo fato de eu ser estrangeira. Ler um texto
literário de minha própria autoria na frente de Aída era desnudar a alma. Prova semanal de valentia.
Em uma das primeiras aulas tivemos
que fazer um texto sobre o conto “O Caçador” de Tchekhov. Uma colega escreveu
um lindo conto descrevendo um campo de lírios brancos e situou a cena no
outono. Aída elogiou o trabalho, mas disse que havia um erro na narração.
“Lírios brancos não nascem no outono na Rússia”. A classe toda arregalou os
olhos. Uma ação dramática para exemplificar uma pessoa culta e exigente se construíra. E tive plena noção dos desafios que me esperavam pela frente.
Ela fazia cada aluno dar seu melhor.
Não permitia corpo-mole e mediocridade. Era muito ríspida quando acontecia. E
expunha sem pudores sua frustação com o mundo atual, muito individualista , superficial, e com a falta de interesse dos jovens pelos estudos. Foi justamente esse
sentimento que a fez aceitar o convite d o diretor Juan José Campanella para ministrar
as aulas do curso que frequentei, batizado de “Escribir Cine”. “Este país está
indo a merda por falta de bons escritores” falou uma vez. Campanella é seu
principal discípulo. Seus métodos funcionam ;).
Nas aulas, entre uma leitura e
outra das tarefas ela se permitia reflexões sobre a vida. Em uma delas disse:
“No hay gente gris”, traduzindo ao pé da letra seria “Não há pessoa cinza”,
querendo dizer que todo mundo tem características interessantes. E sugeria que
não se pode ignorar a complexidade do ser humano. Cada pessoa traz uma carga
única, fruto de sua experiência individual e intransferível. E em termos
práticos, saber observar essa complexidade é a principal ferramenta para construir
um bom personagem.
Aída não exigia que escrevêssemos
no presente usando o padrão clássico de roteiro. Gostava de deixar os alunos
livres para criar como quisessem (um ilustre colega escreveu letras de rap,
por exemplo). Mandava as favas os manuais de roteiros. Sempre batia na tecla
que um bom roteirista era antes de tudo um bom escritor, um bom contador de
histórias.
“Vivir” (viver). Foi falando do escritor ucraniano Isaac Babel, quando nos passou a tarefa sobre seu livro “Exército de
Cavalaria”, que Aída soltou este verbo. Gorki escritor e mestre de Babel disse ao
discípulo que ele escrevia muito bem, mas que tinha viver para ser um escritor
de verdade. Babel levou o conselho a sério e se alistou no exercito russo.
Vivenciou experiências extremas e as reportou de um jeito único no conjunto de
contos que tivemos que ler.
Aída queria que fossemos além, que criássemos,
que nos propuséssemos a novas experiências, que produzíssemos textos capazes de gerar inquietações nos leitores ou espectadores.
Ela teve um grande amor em sua
vida. “Um homem que se apaixonou por mim e eu por ele. O que é difícil de
acontecer”. E durante as aulas, olhando para ela, gostava de imagina-la
colocando em prática sua sua paixão pela literatura, pelo cinema e vivendo aquele amor incondicional pelo marido, cujas fotos estavam espalhadas por toda
casa. E me punha a pensar quantos desafios ela superou. Ser mulher
latina, judia, e ter posição política bem definida e declarada… Certamente foi uma jornada heróica.
A última aula do curso foi no dia
do meu aniversário e véspera da minha volta ao Brasil. Foi uma aula bem
gostosa. Diferente das outras não tivemos que escrever nada e sim levar poesias
que tivessem algum significado pessoal.  No intervalo tomei coragem e disse a ela o quanto a admirava, que havia aprendido muito com ela, e que toda a leitura e escritura proposta nas aulas mudaram meu jeito de ver o mundo. Ela, que até então sempre parecera indiferente e dura comigo, sorriu um sorriso
doce e disse, com seu jeito intenso “que hermoso”. Melhor presente!
Aída será sempre um exemplo a ser
seguido, como roteirista, sim, claro, mas principalmente como pessoa apaixonada
pela vida. A vida é breve e precisa de um roteiro emocionante. 

***
Ah! Aída concorreu ao Oscar© de Melhor Roteiro Original por a “A História Oficial”. O filme ganhou a estatueta
de melhor filme estrangeiro em 1985.
Outro filme de sua autoria “A Trégua” também concorreu ao Oscar© de
melhor filme estrangeiro em 1974, mas perdeu para “Amacord” do Fellini.

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